Tradução de Chapter 58: The Desert Paradise de Father Seraphim Rose: His Life and Works, por Hieromonge Damasceno, pp. 452-463.
Um homem silencioso é um filho da sabedoria, sempre adquirindo muito conhecimento. – São João Clímaco
Nem todo homem quieto é humilde, mas todo homem humilde é quieto. (…) O homem humilde está sempre descansado, porque não há nada que possa agitar ou perturbar sua mente. (…) Eu diria que o homem humilde não é deste mundo. – Santo Isaque o Sírio
Com a pequena chama que queimava em seus corações desde sua tonsura, os padres podiam seguir Pe. Esperidião mais e mais fundo no mistério monástico. Agora eles verdadeiramente começavam a colher os frutos espirituais do deserto.
“Nossa atenção”, Pe. Germano escreve, “gradualmente começou a compreender a vida que diretamente nos rodeava. Nós começamos a ver a realidade mais como ela é, e a não depender da opinião humana. O som do vento, as mudanças do tempo, sua influência no humor, a vida dos animais e pássaros da floresta – era como se até a respiração das plantas e árvores agora tivesse significado. Idéias pacíficas eram semeadas. Os olhos começaram a se acostumar a ver não só o que era externo e saltava até eles, mas a essência da matéria. Embora amigos viessem com amor e tentassem ajudar, eles eram na verdade mais um peso e desde o começo cometiam erros de julgamento simples, preocupando-se com o aspecto externo que passa e não vendo a essência. E com que alegria era o coração cheio quando o silêncio reinava novamente e a loquaz quietude”.
O Ancião Zósimo da Sibéria*, cuja Vida e escritos estavam entre os textos seminais que tinham atraído os padres para a selva em primeiro lugar, uma vez escreveu sobre o deserto: “Como é possível descrever acuradamente todos os sentimentos espirituais internos que são tão doces que nem mesmo um bem-sucedido governo sobre um reino pode dar a mesma alegria e paz como dá a vida deserta! Pois quando você nem vê, nem ouve, nem se associa com o mundo que se extraviou, você encontra paz, e sua mente toda naturalmente aspira a Deus somente. Não há nada na vida deserta que estorve ou distraia alguém de servir a Deus, ler a Santa Escritura, e nutrir sua alma com funda contemplação de Deus. Pelo contrário, todo evento e todo objeto inspiram a lutar na direção de Deus. A densa floresta o cerca e esconde do mundo todo. O caminho para o céu é claro e puro, e atrai seu olhar e inspira seu desejo de ser autorizado a ser transladado naquela bem-aventurança. E se seu olhar se volta para a terra, para observar todas as criaturas e o todo da natureza, seu coração é não menos exaltado com doce amor pelo Criador de tudo, com admiração por Sua sabedoria, com gratidão por Sua misericordiosa gentileza; até o agradável cantar dos pássaros inspira a louvor e canção cheios de oração. Toda a criação leva nosso imortal espírito a se unir com seu Criador!”
“Eu acredito”, escreveu o Ancião Zósimo em outro lugar, “que se alguém parte para o interior do deserto dominado e persuadido por um divino amor por Cristo, verdadeiramente viverá como se no Paraíso”.
Essa se tornou a própria experiência do Pe. Serafim. Pe. Germano relembra como uma vez ele despertou de um terrível pesadelo e correu a contar para Pe. Serafim seus medos. “O que estamos fazendo aqui fora neste lugar?”, exigia. “Isso é loucura!”
Pe. Serafim esfregou o sono dos seus olhos. “Por que, estamos no Paraíso!”, disse ele.
Numa outra ocasião, Pe. Germano lembrou Pe. Serafim de seu livro inacabado, O Reino do Homem e o Reino de Deus, e falou sobre a possibilidade de completá-lo e publicá-lo. Em resposta, Pe. Serafim disse que o Reino do Homem estava degenerando mais rápido que ele tinha esperado. “E quanto ao Reino de Deus”, ele concluiu, “nós o estamos criando aqui. Nós já o temos (…) nós estamos nele”.
A isso, Pe. Germano começou a rir, pensando em suas cabanas primitivas e estrada lamacenta, em sua falta de uma fonte de água, nos morcegos locais, cascavéis e escorpiões. “Não ria”, disse Pe. Serafim. “É verdade”. E com um olhar significativo ele apontou um dedo para o céu.
No Pe. Serafim, como no Pe. Esperidião, Pe. Germano apanhava relances de uma outra vida, uma outra existência. Pela manhã, antes dos ofícios da Igreja, Pe. Serafim tinha uma prática de circular as terras do mosteiro inteiras. Enquanto o fulgor dourado da luz matinal penetrava através da extensa cobertura das folhas de carvalho, Pe. Serafim podia ser visto abençoando e até beijando as árvores.
“O que é isso?”, Pe. Germano perguntava. “Beijando árvores!”
Pe. Serafim levantava os olhos, sorrindo radiantemente, e continuava andando.
Pe. Serafim sabia melhor que muitas pessoas que esta velha terra, prostrada pela decadência do homem, não tinha muito mais para viver, que ela seria “obliterada num piscar de olhos”, transfigurada numa nova terra. E ainda, como Pe. Germano percebeu enquanto o assistia a fazer suas voltas, Pe. Serafim já estava vivendo como se na idade futura. “Ele queria morrer”, Pe. Germano diz, “para se fundir à terra, que será transformada. (…) Para ele, a própria idéia da árvore que ele beijava era ultramundana, pois as árvores foram originalmente criadas incorruptíveis no Paraíso, de acordo com o ensinamento de São Gregório do Sinai”.
De forma a conhecer esse reino transfigurado o qual era a herança do homem desde o princípio, Pe. Serafim estava antes de tudo sendo transfigurado ele mesmo. Todo o objetivo da vida monástica é a transfiguração do velho homem num ser não-terreno, pelo que a Festa da Transfiguração do Senhor no Monte Tabor tem tradicionalmente encerrado tão grande significado para monásticos.
Como Pe. Serafim sabia, entretanto, tal transfiguração não acontece por si mesma. Ele não esperava as virtudes virem naturalmente, mas, vendo sua falta nele mesmo, ele conscientemente trabalhava por adquiri-las, esperando em Cristo para fortalecê-lo. Cada dia requeria constante guerra invisível, vigiando e lutando contra os movimentos interiores do homem caído. Ele era um daqueles sobre quem Cristo disse: O Reino dos Céus adquire-se à força, e são os violentos que o arrebatam (Mt 11, 12). Um dos visitantes ao skete relata: “Pe. Serafim acreditava que a autêntica vida cristã ortodoxa é muito difícil e que se deve agarrar e permanecer nela não apenas firmemente e com toda a sua força, mas com uma certa ‘resistência’ e tenacidade, mesmo uma impetuosidade, porque tudo no mundo, tudo nesta vida, está constantemente tentando levá-la embora e substituí-la por alguma imitação barata. Ele particularmente gostava daqueles santos muito obstinados que somente se mantinham retos na direção, não importando quais os obstáculos. Essa era uma das coisas que ele especialmente admirava no Arcebispo João (Maximovitch), que mantinha sua vida interior intacta, o que quer que estivesse acontecendo à sua volta, e permanecia sempre serenamente indiferente às opiniões dos outros sobre ele”.
Nunca esquecendo a necessidade de forçar-se na vida espiritual cristã, Pe. Serafim vivia de acordo com as seguintes palavras de São Macário o Grande, as quais ele inscreveu em seu diário espiritual: “Vindo ao Senhor, um homem deve forçar-se àquilo que é bom, mesmo contra a inclinação do seu coração, continuamente esperando Sua misericórdia com fé indubitável, e forçar-se a amar quando não tem amor, forçar-se à docilidade quando não tem docilidade, forçar-se à piedade e a ter um coração misericordioso, forçar-se a ser olhado de cima para baixo, e, quando olhado de cima para baixo, a suportá-lo pacientemente (…) forçar-se à oração quando não tem oração espiritual. E assim Deus, observando-o assim lutar e compelir-se à força, a despeito de um coração involuntário, dá a ele a verdadeira oração do Espírito, dá a ele verdadeiro amor, docilidade, entranhas de misericórdia (Col 3, 12), verdadeira gentileza, e em breve o enche com fruto espiritual”.
O meio primário da transformação espiritual é o arrependimento: a consciência do pecado dentro de si mesmo – mesmo o mais sutil – e o desejo pungente de sair dele e mudar. Foi visto como Pe. Serafim, nos primeiros anos da sua conversão, experimentou um processo de fundo arrependimento que o mudou num novo ser. Mas seu arrependimento não terminou aí. Como ele bem entendia, a verdadeira vida espiritual envolve contínuo arrependimento, e uma correspondente contínua recriação e perfeição do ser interno através da graça de Cristo. Em 1964, não muitos anos após sua conversão, ele tinha discutido isso num de seus “sermões leigos”. Refletindo sobre o Bom Ladrão que, enquanto pendurado na cruz, tinha tomado conhecimento do seu pecado e confessado o Cristo, Pe. Serafim escreveu: “Nós estamos todos, quer percebamos isso ou não, na posição desse ladrão. Como ele, nós fomos condenados por nossos pecados como imerecedores desta vida; como ele nós não temos nada a esperar neste mundo, e nós só encaramos sofrimento e uma morte miserável, se não esperamos por nenhuma outra vida além desta. Mas se, como ele, mesmo em nosso sofrimento e imerecimento nós ainda nos voltamos para o Deus Que condescendeu em compartilhar nossa fraqueza humana, até uma tão ignominiosa morte, e acreditamos que Ele tem o poder de cumprir as promessas que Ele fez a nós – então nossa condenação é revogada, nossos pecados perdoados, nosso imerecimento despercebido, e nossa dor e pesar e morte engolidos em vitória e alegria e vida eterna”.
Todo ano durante a Grande Quaresma, Pe. Serafim tentava reler o conjunto das Confissões do Abençoado Agostinho, e todo ano ele chorava pelo profundo arrependimento de Agostinho. Pelas porções que ele sublinhou no livro, fica claro que Pe. Serafim via sua própria vida na história da conversão do Abençoado Agostinho do pecado e da rebelião à fé. Em muitas passagens as semelhanças são marcantes, como se fosse Pe. Serafim e não Agostinho que estivesse escrevendo sobre seu passado.
Por humilhar-se através de guerra não-vista e arrependimento, Pe. Serafim estava melhor capacitado a dar glória a Deus e apreciar a grandiosidade da Sua criação. Para Pe. Serafim, a apocalíptica transfiguração do mundo caído começava agora mesmo, dentro dele mesmo. Através de um processo de gradual purificação, em contrição, oração e vigilância espiritual, o Paraíso começava a florescer em seu coração. O Reino de Deus estava de fato dentro dele.
Quando Pe. Germano assistia seu colaborador andando através dos bosques absorvido em pensamento, ele pensava: Agora eis um que pertence a este lugar. Em vez de murchar em solidão, ele se eleva aqui. Ele tem um mundo próprio, e estar aqui somente desprende esse mundo.
Pe. Germano também notou que Pe. Serafim estava sempre alegre: não demasiado feliz – só alegre. Os santos, Pe. Serafim uma vez explicou, “estão num estado de profunda felicidade, porque eles estão constantemente olhando acima e mantendo em mente, com determinação e constância, chegar a um certo lugar, o qual é o céu; e assim eles vêem todos os detalhes do mundo a essa luz. Se o que eles vêem tem a ver com o mal, com as redes de demônios, com mundanidade, com aborrecimento, com desencorajamento, ou só com detalhes ordinários da vida, tudo isso é secundário e nunca permitido em primeiro lugar”.
Como Pe. Germano disse, “Pe. Serafim não tinha interesse no mundano; ele nunca se esquecia de que havia um outro mundo. Ele podia imediatamente determinar o que valia a pena e o que não, e totalmente ignorava e descartava coisas baixas, baratas. Isso não era nem deliberado da sua parte; tinha se tornado automático. Ele tinha a força de caráter para concentrar somente no que era necessário. Daí eu podia ver que ele tinha estado praticando guerra não-vista muito antes de eu tê-lo conhecido”.
O que mais maravilhava Pe. Germano era que Pe. Serafim nunca falava uma palavra desnecessária. “Um homem inteligente”, afirmou Santo Antônio o Grande, “é um que se conforma a Deus e se mantém ao máximo silencioso; quando ele fala, diz muito pouco, e somente o que é necessário e aceitável a Deus”.
Pe. Germano estava acostumado a conversar longamente sobre assuntos particulares relacionados a sua vida e trabalho; e Pe. Serafim, valorizando a transmissão dos santos mestres que seu colaborador concedia, pacientemente absorvia isso tudo em silêncio. Pe. Germano pensava que esse era o fim; mas de vez em quando ele ficava surpreso quando Pe. Serafim mais tarde se aproximava com uma pérola de afirmação que cristalizava a própria essência do que ele tinha estado tentando dizer com tantas palavras.
“Eu podia ver”, Pe. Germano relembra, “que não somente sua mente estava trabalhando, mas seu coração estava envolvido, e seu coração captava aquelas coisas que você simplesmente não pode pegar, como ser racional, dos livros. Ele estava num nível diferente de pensamento. Ele pensava muito e orava muito, e de alguma forma a Mãe de Deus estava envolvida nesse processo. As coisas estavam abertas para ele, mas ele não podia falar delas porque os outros não entenderiam. Por isso ele dizia tão poucas palavras, mesmo quando eu urgia que ele revelasse os frutos da sua contemplação”.
Pe. Germano lembra um misterioso incidente das suas primeiras associações com Pe. Serafim, antes da fundação da Irmandade, quando eles passaram a noite na praia perto de uma fogueira. As estrelas estavam fora, e eles podiam ver as bóias tremeluzindo no horizonte. Pe. Serafim sentou-se por horas olhando para o mar, sem dizer uma palavra. Então ele se voltou e olhou para Pe. Germano pelo canto do seu olho. Seu rosto estava muito sério. “Eu conheço você”, ele disse. “Eu conhecia você antes. Eu sabia que você estava vindo”.
Pe. Germano sabia que essas palavras nada tinham a ver com “reencarnação”, pois em suas conversas com Pe. Serafim sobre aquele assunto ele achou suas visões inteiramente ortodoxas. Antes, suas palavras revelavam que ele estava vendo a realidade de um nível mais alto, como ela estava em relação à eternidade. Uma vez Pe. Germano perguntou a Pe. Serafim como as pessoas podiam profetizar o futuro, e o último disse a ele precisamente isso, que tinha a ver com ver de uma perspectiva mais alta.
“Quando você está alto no céu”, Pe. Germano explica, “pode ver um homem vindo, horas antes dele alcançar seu destino. Quando naquela noite Pe. Serafim disse que ele tinha me conhecido antes, foi porque ele tinha visto minha entrada na sua vida de uma outra perspectiva, vinte milhas alto no céu. E isso fez sentido para ele.
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“Ele não estava em casa no mundo, ele não tinha desejo pela vida como eu tinha; e por isso é que ele podia ir tão alto – dentro da superconsciência”.
Pe. Serafim falava muito freqüentemente sobre “a Verdade”, e toda vez parecia ao Pe. Germano que ele não estava falando sobre um mero princípio ou conceito, mas sobre uma Pessoa vivente. Uma vez Pe. Germano encontrou Pe. Serafim orando sozinho na igreja, ferventemente implorando a Deus em seus joelhos. Quando ele perguntou a Pe. Serafim sobre que ele estava orando, este disse que o mundo estava dando as costas à Verdade, e a Verdade estava diminuindo nos corações dos homens. Pe. Germano se maravilhou de que seu colaborador estivesse pensando em tais termos, que ele estivesse mesmo orando sobre a Verdade.
Observando a contemplação silenciosa de Pe. Serafim, Pe. Germano dizia a ele meio brincando: “Você é um hesicasta!” – significando um “silencioso” engajado na direta contemplação da Divindade. Pe. Serafim, porém, não gostava desse termo aplicado a ele mesmo. Ele até ficava indignado, dizendo: “Eu não sei o que isso significa”. É claro que ele sabia intelectualmente, mas ele não queria fingir entender isso por experiência. Ele detestava pose e falsificação de qualquer tipo. Para ele, a vida espiritual tinha que ser antes de tudo pé no chão, cheia de humildade e uma sóbria consciência do próprio baixo estado espiritual. Nos seus dias mais juvenis ele tinha escrito: “Aquele que se acha auto-suficiente está na armadilha do diabo; mas o tal homem que pensa ainda que ele é ‘espiritual’ se tornou quase um ativo cúmplice do diabo, quer ele perceba isso ou não”.
Em seu amor à Verdade, Pe. Serafim se apegava acima de tudo à sobriedade (nipsis), vendo a realidade como é na verdade. O próprio Pe. Serafim explicou esse como o estado de Adão no Paraíso. “Adão”, ele disse, “estava num estado de sobriedade. (…) Ele olhava para as coisas e as via do jeito que eram. Não havia ‘pensamento duplo’ como nós temos em nosso estado caído: olhando para as coisas e imaginando algo mais”.
Os santos e ascetas têm demonstrado que é de fato possível recuperar o estado em que Adão vivia antes da queda; e assim foi que eles conseguiram viver em desamparados e proibidos desertos como se no Éden. Pe. Serafim se aproximava desse estado em simplicidade de coração. Não havia “pensamento duplo” de olhar para si mesmo e imaginar-se “espiritual”. Quanto mais perto ele chegava do incorruptível Paraíso, mais ele sentia que não o merecia.
Padre Serafim estimava todo dia que lhe era dado passar na floresta. Ele se sentia como o habitante de desertos russo, São Cirilo do Lago Branco (†1429), que, tendo encontrado o ponto selvagem que a Mãe de Deus tinha dado a ele para a salvação de sua alma, tinha declarado: “Aqui é o meu repouso para sempre, aqui habitarei” (Sal 131, 15). Em 1972 Pe. Serafim escreveu para seu padrinho Dimítri: “Sim, eu me lembro da nossa Páscoa juntos, e também nossas caminhadas ao redor do Monte Tamalpais (uma vez no Segundo Domingo da Quaresma, eu acho). E agora Deus nos conferiu a grande satisfação de poder viver em tal atmosfera todo o tempo. Profundamente eu tenho grande alegria, e se às vezes eu fico sobrecarregado com trabalho, tenho apenas que dar uns passos para o lado de fora de forma a mais uma vez ‘rejubilar no Senhor’”.
Pe. Serafim exprimiu palavras similares de gratidão em dezembro de 1974, quando foi deixado sozinho no ermitério por uns poucos dias, “derivando inspiração”, como ele disse, “da Vida do Ancião Macário de Optina”. “Tarde na noite passada”, ele anotou, “nossa primeira nevada da estação começou, e hoje ao meio-dia há dez polegadas sobre o solo, com a perspectiva de dezoito polegadas pelo anoitecer se isso se mantiver. Belo e inspirador e estamos constantemente gratos a Deus por nos dar um tal ‘deserto’. Que ele seja frutífero!”
Mesmo que apenas por um dia, Pe. Serafim não gostava de deixar seu lugar de salvação. Quando ele tinha que dirigir até a cidade, ele dava conta disso o mais rápido possível, dirigindo veloz nas estradas de montanha, executando as específicas tarefas sem se demorar por um momento, e voltando para casa imediatamente. Ele especialmente não gostava de ir a São Francisco. Após terem ido lá para a celebração do Natal em 1970, os padres decidiram nunca fazê-lo novamente. De acordo com a tradição do deserto de São Sérgio de Radonezh e outros, eles desde então celebraram Natal e Páscoa sozinhos em seu skete, indo a uma paróquia receber a Santa Comunhão, ou pouco antes ou depois dessas Festas. Em geral, eles iam a São Francisco só uma vez por ano, para a Liturgia no Sepulcro do Arcebispo João no dia do seu repouso.
Em A Palavra Ortodoxa Pe. Serafim escreveu: “O cristianismo é prática, e o monasticismo acima de tudo, é uma questão de ficar num lugar e se empenhar com todo o seu coração pelo Reino do Céu. Alguém pode ser chamado a fazer a obra de Deus em outro lugar, ou pode ser deslocado por inevitáveis circunstâncias; mas sem o básico e profundo desejo de suportar tudo por Deus num lugar sem fugir, dificilmente poderá fincar as raízes requeridas para produzir frutos espirituais. Infelizmente, com a facilidade das comunicações modernas alguém pode até assentar num ponto e ainda concernir-se com tudo, menos a única coisa necessária – com os negócios de todos os outros, com toda a fofoca de igreja, e não com o trabalho concentrado necessário para salvar sua alma neste mundo mau.
“Numa famosa passagem dos Institutos, São Cassiano alerta os monges do seu tempo para ‘fugir de mulheres e bispos. (…)’ Mulheres, é claro, tentam por meio da carne, e bispos por meio da ordenação ao sacerdócio e em geral pela vanglória das relações com aqueles em altas posições. Hoje esse alerta continua oportuno, mas para os monges do vigésimo século pode-se adicionar mais um alerta: Fuja de telefones, viagens, e fofoca – aquelas formas de comunicação que mais que tudo ligam alguém ao mundo – pois eles vão esfriar seu ardor e fazê-lo, mesmo em sua cela monástica, o brinquedo de influências e desejos mundanos!”
Como Lao Tzu, o filósofo favorito dos dias antigos de Pe. Serafim, tinha colocado: “Quanto mais alguém viaja, menos sabe”.
Uma vez Pe. Germano perguntou a Pe. Serafim se havia qualquer lugar no mundo aonde ele quisesse ir.
“Não”, replicou Pe. Serafim.
“Por que não? Você não quer nem ir ao Monte Athos?”
“Nós devíamos lutar, segundo o conselho do Bispo Inácio Brianchaninov, para ter o Monte Athos em nossos corações. Na verdade, estamos trabalhando para ter nosso próprio Monte Athos na América. O único problema é que não há muito tempo restante”.
Em sua leitura dos Santos Padres, Pe. Serafim encontrou muitas passagens que falavam da virtude da estabilidade, isto é, de ficar num lugar. A maioria desses conselhos vem de um contexto monástico, mas, como Pe. Serafim discernia, eles eram pertinentes não só a monges. Anthony Arganda, que disse a Pe. Serafim que queria se casar e criar uma família, lembra de Pe. Serafim dizer que os conselhos monásticos sobre a estabilidade podiam também ser aplicados a leigos em paróquias: “Pe. Serafim enfatizou para mim que, se alguém pula por aí de lugar em lugar, prejudica sua habilidade de fincar raízes. Se a vida em seu mosteiro não é tão ascética e focada como em outro mosteiro, ele disse que é melhor ficar ali do que saltar por aí. Do mesmo modo, se na sua paróquia o nível espiritual parece não ser muito alto, as confissões são perfunctórias, o coro canta fora de tom, etc., é melhor permanecer aí do que trocar para uma paróquia onde tudo parece estar num nível mais alto. Onde quer que você esteja, é aí que você devia trabalhar por sua salvação, em vez de vaguear por aí, procurando pela perfeita expressão de ortodoxia, a mais elevada espiritualidade, o perfeito starets, etc. Pe. Serafim disse-me que estabilidade e lealdade são grandes virtudes. O que é mais agradável a Deus, ele disse, é sua perseverança, sua humildade em trabalhar por sua salvação onde Ele o colocou”.
Algumas pessoas, vindo de cidades alvoroçadas, ficavam admiradas de que um tal lugar como o ermitério de Platina pudesse existir na América moderna. Um jovem visitante tinha uma expressão de absoluto espanto enquanto passava pelo portão do mosteiro. Ele viu os dois monges, em gastas vestes negras, com longos cabelos e barbas, e atrás deles os silenciosos bosques e poucas pequenas construções. Enquanto os padres conversavam com ele, ele continuava olhando ao redor para a floresta, escondida do mundo, onde as orações de monges na antiga tradição da Igreja estavam ainda subindo até Deus. Ele perguntou aos padres se ele podia dar uma caminhada ao redor do ermitério. Enquanto Pe. Serafim assistia o visitante descer a trilha num estado de óbvio enlevo, ele se voltou para Pe. Germano e disse: “Aquele é o nosso tipo de homem!”
Sobre tais pessoas, os padres estavam acostumados a dizer que elas “pegavam o ponto”. Mas esse “ponto”, que os padres nomeavam o “ideal do deserto”, não era tão fácil de propagar. Pe. Germano tinha feito uma tentativa, publicando um relato de sua peregrinação aos sketes selvagens do Canadá. Um jovem russo tinha sido tão tomado por esses artigos que tinha decidido visitar os sketes por ele mesmo. Poucos meses mais tarde, porém, quando ele veio ao Ermitério de São Germano pela primeira vez, ele contou aos padres do seu desapontamento. “Você fez os sketes canadenses soarem tão maravilhosos”, ele disse enquanto passeava com os padres até o topo de Noble Ridge. “Suas descrições eram tão poéticas. Mas quando fui lá, não havia nada – só umas poucas cabanas rudes e poucos velhos monges e freiras russos. Em pouco tempo eles todos estarão mortos e não haverá nada restante. Por que você construiu uma coisa tão grande naquilo? Isso não é verdadeiro!”
“Bem, eu admito isso”, Pe. Germano respondeu. Ao escrever sobre todos os lugares santos na América, ele explicou, tinha querido apresentar aos leitores o potencial da santidade ortodoxa em sua terra, para inspirar os jovens a trabalhar para alcançar aquele potencial. “As sementes do monasticismo do deserto já foram plantadas na América e elas estão sendo nutridas, de uma pequena forma, pelos velhos homens e mulheres que você viu naqueles dilapidados sketes. Se a sua tradição morrer, não será culpa deles, pois fizeram sua parte, se esforçando e orando sozinhos na selva. Em vez disso, será culpa da nova geração de cristãos ortodoxos que não valorizaram o legado transmitido a eles”.
À noitinha, depois que o jovem tinha ido, os padres estavam sentados sozinhos no refeitório. Querendo reafirmação, Pe. Germano começou uma de suas lamentações. “Qual o uso de todo o nosso trabalho pelo ideal do deserto?”, ele perguntou. “É tão difícil para as pessoas aceitarem ou mesmo entenderem. É como se houvesse algum segredo nisso que as pessoas não conseguem captar somente lendo a respeito. Talvez isso realmente esteja além da capacidade da juventude americana contemporânea. Nós damos a eles todas essas imponentes mensagens para inspirá-los, mas quando vêem a realidade, que isso significa uma vida de esforço e privação sem todos os confortos e conveniências modernos, sua resolução enfraquece e eles desistem. Então, no final, há realmente algum objetivo para o que estamos fazendo aqui?”
“Você certamente expressou a resposta para isso eloqüentemente no topo de Noble Ridge hoje”, replicou Pe. Serafim. “Temos de responder por nós mesmos. A geração passada fez a parte dela. Façamos a nossa”.
A coisa mais difícil de aceitar para muitos visitantes era a falta de um telefone no ermitério. Valentina Harvey, que vivia na cidade de Redding, cerca de quarenta e cinco milhas a leste do ermitério, era particularmente preocupada com isso. Uma vez, falando disso ao Bispo Nectário, ela disse: “Aqui estão esses dois monges vivendo nos bosques, com frio e em necessidade. Eu trabalho para a companhia de telefone; eu até conheço os empregados que instalam e mantêm as linhas de telefone em Platina; e eu estive tentando convencer a companhia a instalar um telefone no mosteiro livre de taxas. Mas quando contei ao Pe. Germano sobre isso, ele disse: ‘Sobre nossos cadáveres!’ Por que essa recusa?”
Bispo Nectário sorriu, e respondeu contando uma história. “Próximo ao Mosteiro de Optina”, ele disse, “havia um rio separando-o da cidade próxima. O único contato com o mosteiro era através de uma balsa. Isso causava muita inconveniência, tanto por causa das estações mutáveis e porque o mosteiro estava crescendo rápido, com um grande influxo de visitantes. Os monges e abades, porém, não construíam uma ponte. Finalmente, os citadinos se juntaram e ofereceram para construir uma ponte de graça. Os monges recusaram categoricamente, explicando que eles tinham deixado o mundo e não queriam ter laços fáceis com ele. Esse laço com o mundo é representado tanto pela ponte em Optina quanto pelo telefone em Platina. Quando os soviéticos tomaram a Rússia, eles imediatamente construíram uma ponte e fecharam o Mosteiro de Optina”.
Não eram apenas leigos que não entendiam o desejo dos padres de evitar fácil contato com o mundo. Pe. Panteleimon, cujo mosteiro ficava numa impressionante mansão num subúrbio de Boston, também expressou alguma desaprovação. Numa de suas visitas ao ermitério de Platina ele disse aos padres: “Vocês têm um maravilhoso mosteiro aqui, mas ele não poderá existir do jeito que é porque garotos americanos simplesmente não podem viver sob tão austeras condições”.
“Como podemos fazê-las mais fáceis?”, perguntou Pe. Germano, pensando que Pe. Panteleimon sugeriria encanamento, aquecimento central, eletricidade, ou alguma outra conveniência.
“Você deve arranjar um telefone, caro padre”, respondeu Pe. Panteleimon.
“Mas por que um telefone?”
“Para você poder me contatar”.
“Como isso vai fazer a vida menos austera?”
“Porque então eu posso dizer o que vocês precisam”.
De pé no fundo, Pe. Serafim olhou para Pe. Germano com surpresa. “Por que devemos ter um telefone para ficar em contato com ele?”, ele perguntou após Pe. Panteleimon ter deixado o recinto.
“Responda você mesmo!”, replicou Pe. Germano.
“Vamos esquecer isso”, Pe. Serafim concluiu.
À partida do Pe. Panteleimon, os padres tocaram os sinos do mosteiro e saíram pelo portão para se despedirem. Voltando ao ermitério após o carro ter sumido de vista, Pe. Serafim não parecia satisfeito.
“O que no mundo está errado?”, inquiriu Pe. Germano, incitando uma reação do Pe. Serafim. “Pe. Panteleimon é uma das figuras monásticas ortodoxas principais na América, e ele veio todo esse caminho para visitar-nos pobres idiotas no meio de lugar nenhum”.
“Se não é nosso tipo de monasticismo”, Pe. Serafim disse enfaticamente, “eu não quero isso!”
Padre Serafim não estava interessado no monasticismo de acordo com o jeito que o mundo pensa que devia ser: monges andando por aí agindo espiritualmente, provendo para visitantes admirados um confortável, conveniente e razoavelmente planejado “centro de retiro”. No ermitério de Platina, os padres nem terminaram suas construções. Eles construíram só o suficiente para manter vento e chuva fora – e mesmo nisso não eram sempre bem-sucedidos. Como mencionado anteriormente, sua intenção nunca tinha sido construir um lugar estabelecido, mas somente um sítio de esforço cristão durante sua muito breve peregrinação neste mundo. Mesmo sua igreja nunca foi inteiramente terminada. Seu escuro interior de madeira dava a ela um aspecto aconchegante e caloroso – mas era impossível aquecê-la durante o inverno. “Há uma certa opinião no ar”, Pe. Serafim relatou, “de que é claro que quando você vem à igreja deve estar aquecido, porque você não pode pensar em ofícios de Igreja e preparar-se para a Comunhão quando tem que pensar em pés frios. As pessoas nos dizem isso. ‘É um empecilho muito grande’, elas dizem. ‘Você não pode ir e ficar com os pés frios e esperar nenhuma espiritualidade aparecer’. Acontece de haver essa opinião, e ela está totalmente errada. Os Santos Padres têm vivido através dos séculos em todos os tipos de condições; e, embora não haja o plano deliberado de se torturar com pés frios – ainda, isso é algo que ajuda a fazer alguém um pouco mais sóbrio quanto à vida espiritual, talvez ajude a apreciar o que se tem, e não só tomar por garantido que se vai estar confortável e aconchegante e só”.
Pe. Germano relembra como, quando ele uma vez reclamou da igreja fria, Pe. Serafim disse a ele que estava convencido de que quanto mais ele sofria na igreja fria, mais perto ele chegava das vidas dos próprios ascetas sobre quem ele estava cantando. Enquanto isso acontecia, ele disse, ele sentia o frio menos e menos.
Enquanto o conceito moderno de um “retiro” geralmente se vincula à expectativa de divertimento espiritual, descanso e relaxamento, o conceito ortodoxo de peregrinação é algo bastante diferente. Cristãos ortodoxos têm tradicionalmente feito peregrinações a lugares santos como um podvig de arrependimento purificante, tomando para si voluntárias durezas a ponto de viajar por muitas centenas de milhas a pé. Aqueles que se beneficiaram mais das visitas a Platina não queriam férias, mas antes a chance de agüentar um pouco de dureza, rejeitando o constante auto-mimo do estilo de vida americano.
Era muito oneroso para Pe. Serafim ter que lidar com visitantes casuais que vinham do mundo “só para dar uma olhada”. Ele se sentia obrigado a ser educado e recebê-los em nome de Cristo; mas, como Pe. Germano notava, tais obrigações “faziam-no ficar verde”. Pe. Germano tinha que “resgatá-lo” tirando essas pessoas de suas mãos. Tremendamente aliviado, Pe. Serafim fazia o sinal da cruz e voltava para sua cela monástica para trabalhar em seu próximo artigo.
Uma mulher que veio ao ermitério ficou positivamente escandalizada por ele. Acompanhada por um relutante Pe. Serafim, ela perambulava pelas terras do mosteiro num flamejante vestido vermelho. “Que aborrecida sua vida deve ser aqui!”, ela exclamou. “Sem televisão, sem rádio, nem mesmo um telefone! Como vocês podem agüentar isso?!”
“Nós somos muito ocupados aqui”, Pe. Serafim replicou. “Não temos tempo de ficar aborrecidos”.
Mais tarde, quando essa mulher tinha partido para sua casa na cidade, Pe. Serafim fez esta observação para Pe. Germano: “A cidade é para aqueles que estão vazios, e ela expulsa aqueles que estão cheios. O deserto mantém aqueles que estão cheios e permite-lhes desenvolverem-se”.
* canonizado pela Igreja Ortodoxa Russa (Patriarcado de Moscou) em 2000.