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por Venerável Arcebispo Abércio da Siracusa e da Trindade

Ao mesmo tempo a pessoa deve crer e lembrar que a Ortodoxia não é apenas o que sempre é chamado oficialmente de “Ortodoxia”, pois em nossa época maléfica e falsa, há em todo canto a pseudo-Ortodoxia que levanta sua cabeça e se estabelece no mundo de uma forma extremamente lamentável, mas infelizmente, isso é hoje um fato inquestionável. Esta falsa Ortodoxia luta com todas as forças para substituir a verdadeira Ortodoxia, como em seu tempo o anticristo tentará suplantar e substituir o Cristo por si próprio.

A Ortodoxia não é apenas algum tipo de organização meramente terrena , liderada por patriarcas, bispos e padres que guardam o ministério da Igreja, que é oficialmente chamada de “Ortodoxa”. A Ortodoxia é o “Corpo místico de Cristo”, cuja cabeça é o próprio Cristo (ver Ef. 1,22-23; Col. 1,18, 24 e seguintes),e ela não é composta apenas pelos sacerdotes mas também por todos  verdadeiros fiéis de Cristo, que entraram de uma forma legal em Sua Igreja pelo batismo, todos que vivem nesta terra e todos que morreram na fé e piedade.

A Igreja Ortodoxa não é nenhum tipo de “monopólio” ou “negócio” do clero, como pensam os ignorantes e alienados do Espírito da Igreja. Ela não é patrimônio deste ou daquele hierarca ou sacerdote. Ela é a união espiritual de todos aqueles que verdadeiramente acreditam em Cristo, que lutam de uma forma santa para manter os mandamentos de Cristo, para herdar a benção eterna que Cristo o Salvador nos preparou, e que se pecam devido à fraqueza, buscam o arrependimento sincero e lutam para ” produzir, pois, frutos dignos de arrependimento” (Lucas 3,8).

A Igreja não pode ser retirada completamente do mundo, pois o povo que adere a Ela ainda vive no mundo, então os elementos “terrenos” de sua composição e organização externa são inevitáveis, entretanto, estes elementos ajudam-na a cumprir suas metas eternas. Em todo caso, este elemento “terreno” não deve obscurecer ou suprimir o elemento puramente espiritual - a questão da salvação da alma para a vida eterna - pelo qual a Igreja foi fundada e existe.

O primeiro e fundamental critério, que deve ser utilizado como guia para distinguir a Verdadeira Igreja de Cristo das falsas igrejas (e elas são tantas!), é o fator da verdade ter sido preservada intacta, sem distorções feitas pelos sofismas humanos, pois segundo a palavra de Deus, “a Igreja é o pilar e sustentáculo da verdade” (I Tim. 3,15), e então nela a mentira jamais pode ser encontrada. Qualquer um que confessa e proclama oficialmente uma mentira não é mais da Igreja. Não apenas os mais altos servos da Igreja, mas também entre os fiéis leigos que professam qualquer mentira, relembrando do conselho do Apóstolo: “Pelo que deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo, pois somos membros uns dos outros.” (Ef. 4,25) ou “não mintais uns aos outros” (Col. 3,9). Os Cristãos devem sempre lembrar que segundo as palavras do Cristo Salvador, a mentira vêm do demônio, que “é um mentiroso, e pai das mentiras” (Jo. 8,44). Assim, onde há mentira não pode haver a Verdadeira Igreja Ortodoxa de Cristo! Há também uma igreja falsa que o santo visionário viu e descreveu claramente no Apocalipse como “Veio um dos sete anjos que tinham as sete taças, e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas; com a qual se prostituíram os reis da terra; e os que habitam sobre a terra se embriagaram com o vinho da sua prostituição.” (Rev. 17,1-2).

Até no Velho Testamento os profetas de Deus eram enviados aos infiéis do Verdadeiro Deus, que frequentemente eram representados pela imagem do adultério (ver, por exemplo, Ezq. 16,8-58; ou 23:2-49). E é assustador para nós não apenas falar, mas até mesmo pensar, que em nossos dias insanos temos que observar muitas tentativas para transformar a próprioa Igreja de Cristo numa “prostituta” - e não apenas no sentido figurado da palavra, mas também em seu sentido literal, quando é tão fácil justificar-se; a fornicação e todas as impurezas sequer são consideradas pecado! Vemos um exemplo da chamada “Igreja Viva” e dos “renovacionistas” em nossa desafortunada terra após a revolução, e agora em todas as formas contemporâneas de “modernismos” que buscam trazer uma era fácil de Cristo (Mat. 11,30) para si, traindo toda a estrutura ascética da nossa Santa Igreja, legalizando todo tipo de transgressão e impureza moral. Para falar sobre Ortodoxia, é claro, não há maneira apropriada sem manter os dogmas de Fé inalterados e sem erros!

por Por José Lauro Strapasson

Qual é o nome correto da Igreja Ortodoxa? Já vimos provavelmente diversos nomes como: Igreja Ortodoxa, Igreja Ortodoxa Grega, Igreja Grega, Igreja Católica Ortodoxa, Igreja Ortodoxa Oriental (ou do Oriente), Igreja Oriental (ou do Oriente), Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, Igreja Una, Santa, Católica, Apostólica Ortodoxa, Igreja Ortodoxa Bizantina, etc, etc.

A Igreja Ortodoxa crê firmemente ser a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica que professamos no credo (símbolo niceno-constantinopolitano, em desuso pelos ocidentais) e assim o seu nome mais correto seria Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.

O problema principal desse uso é que a religião romana, a do papa (ICAR), também se considera isso e inumeras denominações protestantes ou evangélicas se consideram participantes da Igreja Católica indivisa do primeiro milênio.

A palavra “ortodoxa” já era usada no primeiro milênio e como a ICAR já não a usa mais o termo “ortodoxa” que significa fé reta e adoração reta é ótimo para designar a Igreja de Cristo.

Porém não somos donos da palavra “ortodoxa”, não temos uma marca registrada digamos assim, e assim ocorre que diversas igrejas não calcedonianas (reconhecem 3 concílios ecumênicos) como a Copta, Sirian, etc, usam também a palavra ortodoxa e até mesmo judeus a usam.


Em inglês, para não confundir, se faz a distinção entre “Eastern Orthodox” e “Oriental Orthodox” sendo que a primeira expressão designa a Igreja Ortodoxa propriamente dita (7 concílios) e segunda expressão designa as igrejas não calcedonianas.

O uso de expressões envolvendo “Oriental” ou “do oriente” deve ser evitado uma vez que embora tenha significado histórico correto em oposição ao cristianismo ocidental (Roma e protestantes), hoje não faz mais sentido uma vez que a Ortodoxia se encontra espalhada pelo mundo todo e a Igreja por ser Católica (quer dizer universal) é de todos e não só do oriente.

O uso de expressões envolvendo a palavra “bizantina” (de bizâncio, constantinopla) desde que em combinação com a palavra “ortodoxa” é adequado uma vez que os não calcedonianos não são bizantinos e os uniatas, embora na maioria dos casos se considerem bizantinos, não usam a palavra “ortodoxa”. O único risco desse uso é o de hipervalorizar a Sé de Constantinopla, o que também não é o caso.

IGREJA ORTODOXA GREGA

As vezes se diz “Igreja Ortodoxa Grega”. Essa expressão tem pelo menos três significados diferentes:


1) Pode designar a Igreja Ortodoxa da Grécia (Arcebispado de Atenas)
2) Pode designar as Igrejas de colônos ortodoxos gregos na Diaspora (América, Europa ocidental) que tipicamente estão ligadas ao Patriarcado de Constantinopla.
3) Pode designar a Igreja Ortodoxa como um todo, em oposição a “latina” romana ou ainda

para destingir das igrejas não calcedonianas. Nesse caso pode-se falar em “Patriarcado Ortodoxo Grego de Antioquia”, “Patriarcado Ortodoxo Grego de Alexandria, etc”.
Por exemplo, eu que sou da Igreja Ortodoxa Antioquina sou da Igreja Ortodoxa Grega apenas no terceiro uso e não nos dois primeiros. Em cada caso o contexto vai explicitar em que uso estamos nos referindo.

IGREJA CATÓLICA ORTODOXA - UMA REDUNDÂNCIA

Antes de explicarmos essa redundância vamos falar um pouco do uso da palavra católico pelos “ocidentais”.
Para eles a palavra católico tem duplo significado.

i) Pode designar os que estão ligados ao papa romano.
Nesse sentido os maronitas, católicos ucranianos, melquitas, etc, junto com os latinos seriam todos “católicos”.
Nesse caso por “católico romano” ou “católico apostólico romano” eles entendem os que estão ligados ao papa (católicos) e que seguem o “rito latino”, o mesmo usado em Roma. É o rito predominante da Igreja Romana. Assim os melquitas, maronitas, católicos ucranianos, etc, seriam apenas católicos mas não romanos.
ii) Pode designar a fé e as tradições do agrupamento oriundo da Igreja “Indivisa”. Assim fala-se em Católico Romano como sendo todos os ligados ao papa romano (agora incluindo melquitas, maronitas, etc), Católicos Ortodoxos (ortodoxos), Vetero Católicos, “Católicos Brasileiros”, etc.

Na luz da Ortodoxia, qual destes usos seria o correto? Nenhum deles! Embora a Igreja Ortodoxa seja Católica ela com toda a humildade se considera “A Igreja” ou “A Igreja Católica”. Assim embora por respeito não raro chamemos os adeptos da religião do papa romano de “Católicos” ou “Católicos romanos” para a Ortodoxia somente ela própria, a Igreja Ortodoxa, é católica e para nosso uso todo católico é ortodoxo e todo ortodoxo é católico. Assim a expressão Católico Ortodoxo passa a ser redundante. A Igreja Ortodoxa não é “também Católica”, para ela, somente ela é Católica.

A conclusão é que se não havendo confusão, pouco importa o nome escolhido para designar a única Igreja de Cristo, sendo que simplesmente “Igreja Ortodoxa” serve na maioria dos casos.


A Rússia adotou a Santa Ortodoxia e sua cultura com uma facilidade incomum, ainda que com sinceridade e franqueza. É até possível afirmar, sem medo de errar, que a própria Bizâncio não suspeitava que a Rússia e o povo russo fossem sucessores dignos da Santa Ortodoxia. E aconteceu que a Rússia foi levada à fé cristã pela Providência Divina, para que preservasse a verdade da correta teologia, do Cristianismo Ortodoxo genuíno. É possível supor que também pela Providência Divina uma Rússia forte e poderosa foi despertada quando sua população foi convertida ao Cristianismo, ao mesmo tempo em que os cristãos ocidentais abandonavam a verdadeira Ortodoxia, caindo em heresia, e quando o mundo ortodoxo oriental estava sendo ameaçado pelo Islã; a Rússia estava sendo preparada pela Providência Divina para se tornar a guardiã dos verdadeiros ensinamentos da revelação divina, tornando-se o novo povo escolhido para preservar na terra a verdadeira fé ortodoxa.

No começo de nossa história, em Kiev, por meio dos esforços do Santo Príncipe Vladimir e seus herdeiros, a Rússia começou a florescer espiritualmente, a ganhar força, tanto politicamente quanto administrativamente. No entanto, os ataques tártaros e a devastação que se seguiu paralisaram esse florescimento.

Mas apesar das perdas e sofrimentos infligidos por pagãos e heterodoxos, os corações dos russos se apegaram ainda mais à Santa Igreja Ortodoxa, fazendo com que a autoridade da fé ortodoxa atingisse um elevado patamar. Uma nova era de imponência e renovação espiritual tomou conta dos séculos seguintes: os séculos XIV e XV. É a era de São Sérgio de Radonezh e seus discípulos, que fundaram mosteiros por todo o norte russo, com seus povoados em torno deles. Assim, a “Santa Rússia” crescia e se expandia.

No começo do século XVI, quando a Rússia se encontrava separada do oriente ortodoxo e Bizâncio estava sob controle turco, o perfil da batalha espiritual em nossa terra natal começou novamente a mudar. Desavenças e conflitos entre os “possuidores” e os “não-possuidores” começaram a surgir. Foi então que nosso monasticismo mergulhou num período muito ruim: o reinado do Imperador Pedro I. Chegou ao ponto de monges serem perseguidos, especialmente quando pessoas estrangeiras influenciavam nossas imperatrizes. Na segunda metade do século XVIII, uma mudança começou a tomar forma, e o monasticismo russo experimentou um renascimento com o Ancião Schemamonge Paísio Velichkovsky.

Primeiramente, farei uma breve descrição de sua biografia para, então, discorrer sobre suas obras e seu legado espiritual.

O futuro Ancião Paísio, ou São Paísio, como o chamamos hoje, nasceu em 21 de dezembro de 1722, na cidade de Poltava, de uma família de padres: seu pai, seu avô e seu bisavô foram padres. Sua mãe se tornou monge no fim da vida, assim como sua avó e tia. Ele foi batizado com o nome de Pedro. Seu pai, Pe. João, era o pároco da Catedral da Dormição. Sua mãe, Irina, trabalhava com crianças. Pedro era um menino quieto e manso; ele adorava ler, e lia livros espirituais desde a tenra idade, tanto na sua casa como na biblioteca da catedral. Ele lia as Sagradas Escrituras e diversas obras de São João Crisóstomo e São Éfrem, o Sírio.

Seu biógrafo notou que ele era “acanhado e despretensioso”, de maneira que até seus pais raramente ouviam sua voz, e as visitas freqüentemente perguntavam: “Ele é surdo?”

Aos 13 anos, Pedro entrou na Escola Teológica de Kiev, mais tarde renomeada para Academia Teológica, onde o Arcebispo Simão (Todorsky) de Pskov dava aulas na época, juntamente com o Metropolita Arsênio (Matseevich) de Rostov e outros. O Hieromonge Josafá, o futuro Bispo de Belgorod, ainda estava lá. A educação era de alto nível. Havia 1200 estudantes na Academia. Mas Pedro não entrou lá por dcausa isso, pois seu coração estava tomado pelas igrejas, pelos santos mosteiros, pelas cavernas daqueles que faziam votos de silêncio, e pelas conversas que tinha com amigos sobre a vida eremítica. Eles freqüentemente se encontravam em locais isolados e conversavam sobre coisas espiritualmente benéficas. “É melhor”, diziam-se mutuamente, “permanecer no mundo do que rejeitar as dádivas mundanas apenas por exibicionismo e viver uma vida despreocupada e fácil num mosteiro”. Eles juraram nunca serem tonsurados num mosteiro rico, onde seria impossível emular a pobreza de Cristo.

No terceiro ano da escola, o entusiasmo de Pedro foi minguando, enquanto seu desejo pelo monasticismo foi crescendo mais e mais. As férias escolares chegaram, e Pedro foi para casa. Sua mãe, que ficou sabendo de seu desejo de deixar a escola e tornar-se monge, opôs-se categoricamente a esse projeto. Pedro tinha um amigo em Poltava chamado Dmítrio, e eles juraram deixar o país juntos. Mas seus planos falharam, porque Pedro adoeceu e teve de adiar sua viagem a Kiev. Quando ele enfim sarou, sua mãe o acompanhou, supondo que ele iria continuar os estudos. Mas, em Kiev, Pedro começou a repensar seu futuro. Ele decidiu dirigir-se a Chernigov e consultar o Ancião Pacômio, a fim de obter seus conselhos e instruções, bem como sua bênção para seus planos futuros. Após passar alguns dias com o Pe. Pacômio, este lhe disse: “É melhor que você vá a algum mosteiro não muito longe de Lubech, a terra natal de Santo Antônio das Cavernas. Lá você encontrará o Hieromonge Joaquim, que lhe dirá o que fazer”. Pedro seguiu as instruções do Pe. Pacômio. Quando Pedro se aproximou do mosteiro, notou que havia guardas entre a cidade de Lubech e o mosteiro. Pedro ficou com medo de ser barrado, pois não tinha documentos. Na mesma hora, um monge surgiu do outro lado. Parando junto ao guarda, o monge fitou Pedro, que se aproximava, e disse ao guarda quando este chamava o garoto: “Por que você está perguntando quem é ele? Será que você não percebe que ele é um noviço retornando ao mosteiro?” O guarda, então, deixou Pedro passar. E assim, com a ajuda de Deus, ele pôde entrar no mosteiro. Foram-lhe conferidas as obrigações de ekomonos (gerente do mosteiro), lendo as Vidas dos Santos no refeitório e assumindo diversas incumbências. Ele morava próximo ao Ancião Joaquim, que o abençoou para usar a batina, regozijando-se em sua vida pacífica.

Mas Pedro não ficaria lá por muito tempo. Três meses depois, um novo superior foi designado, e por causa de certos problemas que se seguiram, Pedro deixou o mosteiro. Ele vagava pela margem direita da Pequena Rússia, que à época estava sendo invadida por poloneses e uniatas. Ouvindo falar de um eremita que vivia numa ilha fluvial, Pedro apressou-se em conhecê-lo. Seu nome era Isíquio. Ele trabalhava transcrevendo as obras dos Santos Padres. Pedro pediu para que fosse aceito como estudante. Embora a face de Pedro estivesse molhada de lágrimas e súplicas, o ancião foi implacável: “Filho, sou pecador e indigno, e não consigo nem mesmo dirigir minha pobre alma a Deus”.

Deixando o eremita, Pedro logo encontrou um mosteiro chamado Medvedovsky, ao qual se juntou. Ele não tinha destreza, e os irmãos freqüentemente zombavam dele. Foi-lhe dada a incumbência de moer trigo, mas ele acabou cortando seus dedos. Então lhe conferiram a tarefa de carregar água e argila, cortar pão no refeitório, servir comida aos monges e lavar louça. Ele foi designado ao kliros. Neste mosteiro, ele foi tonsurado à rassa com o nome de Platão. Seu pai espiritual deixou o mosteiro algumas semanas mais tarde, e Platão ficou sem pastor, “como uma ovelha perdida”. Ele disse a si mesmo: “Minha alma em minha juventude era muito inclinada à obediência, mas não recebi a divina dádiva [oportunidade] por causa de minha indignidade”.

Tempos depois, este mosteiro acabou sendo atacado pelos uniatas, que o fecharam. Pe. Platão foi à Lavra de Kiev, trabalhando em sua gráfica. Ardendo de desejo pela vida ascética e eremítica, Pe. Platão dirigiu-se a Moldovlachia, onde a vida espiritual estava florescendo, já que os mosteiros de lá se encontravam sob influência da Santa Montanha de Athos. Ele permaneceu três anos nos mosteiros de Moldovlachia, sob a direção dos anciãos Pe. Basílio, Pe. Miguel e Pe. Onofre.

Mais tarde, Pe. Platão empreendeu uma viagem ao Monte Athos, esperando encontrar lá guias espirituais e assumir a vida ascética. Pe. Platão tinha 24 anos à época. Eis o que seu biógrafo relatou sobre sua mudança para o Monte Athos: “Quem pode perscrutar os caminhos do Senhor? Quem conhece Seus desígnios? Pela Sua Divina Providência, Ele o tirou de sua terra natal, levando-o a muitas nações, de maneira que pudesse ajuntar para sua alma grandes tesouros espirituais e distribuí-los entre aqueles que buscassem seu guiamento. O Senhor o fez emular Santo Antônio das Cavernas, que também era nativo de Pequena Rússia. E a exemplo de Santo Antônio, que também peregrinou até finalmente se fixar no Monte Athos, onde assumiu as ordens angelicais monásticas e, depois de muitos anos de trabalho e dádivas espirituais, retornou à sua terra natal para semear e multiplicar a vida monástica; assim também São Paísio obteve tesouros celestiais e retornou à sua Moldávia, renovando as ordens monásticas, restaurando a vida monástica decadente e plantando nela a tripla bênção da obediência, iluminando as trevas da ignorância por meio de seus ensinamentos, concedendo sabedoria por meio da correção e tradução dos textos teológicos dos Santos Padres do grego para sua língua nativa”.

O Hieromonge Tryphon foi à Santa Montanha com o Pe. Platão. Eles chegaram ao Monte Athos no dia 4 de julho, na festa de Santo Atanásio de Athos, que viveu como eremita na Santa Montanha e lá fundou o primeiro mosteiro cenobítico.

Hoje, esse é o principal mosteiro do Monte Athos, o primeiro entre vinte. Descansando alguns dias na lavra de Santo Atanásio, os viajantes se dirigiram ao Mosteiro do Pantocrator, próximo de onde os monges eslavos viviam. A estrada até o Mosteiro do Pantocrator era longa e perigosa. Os viajantes, exaustos, sentaram-se para descansar e beberam um pouco de água gelada. Por causa disso, pegaram resfriado. O Hieromonge Tryphon entrou em delírio, morrendo logo que chegou ao Mosteiro do Pantocrator.

Platão conseguiu sobreviver. Aos poucos, ele começou a conhecer os mosteiros vizinhos, visitando os eremitas e monges locais em busca de um pai espiritual. Foi difícil para ele, pois viveu na pobreza por mais quatro anos. Em 1750, o pai espiritual moldávio do Pe. Platão, o Schemamonge Basílio, foi ao Monte Athos e tonsurou Platão com o nome de Paísio. Em pouco tempo, Paísio recebeu seus primeiros estudantes, Vissarion e Cesário; com o tempo, o número de estudantes subiu para 12. Em 1759, aos 36 anos, Pe. Paísio foi ordenado hieromonge. Como o número de monges estava crescendo, Pe. Paísio solicitou ao Mosteiro do Pantocrator que lhe dessem a cela do Profeta Elias, para que ali instituísse o Esquete do Profeta Elias. Portanto, o Pe. Paísio foi um dos fundadores do atual Esquete do Profeta Elias, na Santa Montanha de Athos. Seu esquete começou a crescer e, em breve, não apenas sua irmandade mas monges de todo o Monte Athos se tornaram seus filhos espirituais. Até mesmo o Patriarca Serafim, que vivia aposentado no Mosteiro do Pantocrator, visitou-o a fim de obter guiamento espiritual. Todos os irmãos faziam artesanatos, e o próprio ancião fazia colheres, passando as noites lendo e reescrevendo os livros dos Santos Padres, dormindo não mais do que três horas por dia.

Mas o inimigo da humanidade invejava o crescimento da irmandade de Paísio, sua vida pacífica e seu sucesso espiritual. Surgiram problemas entre os moradores do esquete, insuflados pelo Ancião Atanásio, que viva nas proximidades. Essa inimizade e os problemas dela resultantes perturbavam Pe. Paísio e seus estudantes.

A irmandade cresceu, chegando a 50 pessoas, mas não havia espaço disponível para todos, de maneira que novas celas tinham de ser construídas. Contudo, não havia fundos para tal. Seguindo a recomendação de vários habitantes do Monte Athos, Pe. Paísio e seus monges se mudaram para o Mosteiro de São Simão Pedro, que estava vazio à época. Eles esperavam assim evitar conflitos com o Ancião Atanásio. Os monges do Mosteiro de São Simão Pedro o abandonaram porque deviam dinheiro às autoridades turcas, e não conseguiam lhes pagar. Em três meses, Pe. Paísio e seus monges também tiveram de deixar o mosteiro, pois os turcos estavam exigindo a liquidação da antiga dívida, e eles também não conseguiam lhes pagar. Eles retornaram ao Esquete do Profeta Elias, mas sua aguda pobreza não lhes permitiu que permanecessem por muito tempo, e eles tinham então de encontrar um novo lar.

Ancião Paísio decidiu mudar-se, juntamente com seus irmãos, para Moldovlachia. Em 1763, após 17 anos no Monte Athos, ele e 64 monges partiram para a Moldávia.

Ancião Paísio contratou duas embarcações: em uma ele ficou com os monges eslavos, e em outra ficaram Pe. Vissarion e os irmãos moldávios. Eles chegaram primeiro ao Mosteiro do Espírito Santo, em Dragomir, Bukovina. O mosteiro lhes foi dado cheio de mato e com todos os impostos vencidos. Embora estivesse em estado deplorável, em pouco tempo, por meio dos esforços dos monges, o mosteiro ficou em boas condições. A regra monástica das cerimônias era a mesma do Monte Athos. Eles celebravam em duas línguas: no kliros da direita, cantavam em eslavo, no da esquerda, em moldávio.

O Ancião exigia que cada monge cumprisse seu chamado com total consciência e severidade, pois um monge não se reconhece pela sua roupa, mas pelo seu espírito.

Às vezes, o Ancião permanecia com os irmãos o dia inteiro; as portas de sua cela ficavam abertas até as 21h. Os monges entravam e saíam para conversar sobre questões práticas e espirituais. A leitura diária que o Ancião fazia dos livros dos Santos Padres, bem como as discussões a respeito, eram de enorme importância para a vida espiritual dos monges. Mas a pacífica vida em Dragomir foi logo perturbada pela guerra entre Rússia e Turquia. Dragomir caiu em mãos austríacas, de maneira que os irmãos tiveram de evacuar para Sekul. Em Sekul, os irmãos começaram a ajudar os refugiados. Problemas começaram a surgir entre os irmãos mas, aos poucos, a vida em Sekul começou a se normalizar. Os estudos do Ancião não cessaram por causa desses contratempos. Então, em 1779, pelas intercessões do Príncipe Constantino e com a bênção do Metropolita Gabriel, foi oferecida ao Ancião Paísio e seus monges a oportunidade de se mudarem para Niametz. Mas o Ancião Paísio não ficou contente com essa proposta, uma vez que tal mudança envolveria grandes complicações, e ele já estava ficando velho.

Após alguma hesitação, o Ancião concordou em se mudar, mas deixou alguns monges em Sekula. Este foi o período final e mais difícil de sua vida, mas foi também o mais frutífero. O número de irmãos chegou a 700. A fama da vida espiritual altiva do mosteiro e de seu ancião espalhou-se por todo o oriente ortodoxo. Com a ajuda do Príncipe, o Ancião construiu um hospital no mosteiro, juntamente com uma casa de misericórdia, e aumentou em muito o número de celas monásticas. Ele instituiu ainda a prática intensiva de transcrições e traduções das obras dos Santos Padres, e reuniu um grande número de assistentes, preparando-os especialmente para seu trabalho editorial. Ele ensinou-lhes grego e, para completar sua educação, enviou-os à Academia de Bucareste.

Graças ao árduo trabalho desse grupo de monges, um grande número de traduções fiéis aos originais dos Santos Padres começou a aparecer, juntamente com diversas transcrições. De acordo com o Prof. A. I. Yatsimirsky, dos milhares de manuscritos conservados na biblioteca de Niametz, escritos em diferentes períodos e em diferentes línguas, incluindo moldávio, grego, latim, italiano, alemão, hebraico, árabe, turco, sírio, búlgaro, polonês, francês e eslavo, 276 deles são do período do Ancião Paísio, e mais de 40 escritos pelas próprias mãos do santo.

A crescente fama de mestre da vida espiritual inspirou muitas pessoas a se corresponderem com Ancião Paísio. O Ancião respondia a essas cartas, às vezes de maneira volumosa. Nelas, o Ancião tocava em diversas questões da vida monástica e eclesiástica em geral, dando instruções e conselhos. Essas correspondências ocupavam grande parte de seu tempo. Em meio a essas tarefas, muitos anos se passaram despercebidos, e aos poucos o santo se aproximava do fim de sua vida.

Seus últimos dias foram eclipsados pelas preocupações causadas pela guerra entre Rússia, Áustria e Turquia. Niametz foi ocupada pelos turcos, mas os austríacos tentaram, com todas as forças, emancipar Niametz, enquanto as tropas russas se aproximavam. O comandante-em-chefe do Exército Russo, Príncipe Potemkin, dirigiu-se a Jassy, juntamente com o Arcebispo Ambrósio da Eslovênia e Poltava. O Arcebispo, desejando conhecer o famoso Ancião Paísio, chegou ao Mosteiro de Niametz e recebeu os cumprimentos dos monges. Isto foi em 1790. Neste domingo, o Arcebispo Ambrósio oficiou a Divina Liturgia, durante a qual o Ancião foi elevado a arquimandrita. O Ancião nasceu em Poltava, e foi o Arcebispo de Poltava quem o ordenou arquimandrita.

Após o fim das operações militares, a vida começou aos poucos a voltar ao normal, enquanto o Ancião continuava a trabalhar como antes: ele fazia traduções, escrevia cartas e guiava os monges. Mas suas forças estavam se esgotando. Pouco antes de ser fatalmente acometido por uma doença, ele parou de fazer traduções. Em 5 de novembro de 1794, ele se sentiu muito fraco, e foi levado à sua cama. No domingo, ele se sentiu melhor e conseguiu ir à igreja comungar. Todavia, sua fraqueza progrediu, e em 15 de novembro de 1794, aos 72 anos de idade, São Paísio repousou em paz.

A notícia do repouso do Arquimandrita Paísio espalhou-se rapidamente, e um grande número de monges e fiéis dirigiu-se a Niametz. Quando o Bispo Benjamin chegou, deu-se início ao funeral na Catedral da Ascensão, seguido de seu enterro.

Verificamos, assim, que a mudança do Ancião Paísio a Moldovlachia, pela Providência Divina, mostrou-se extremamente benéfica. Se ele tivesse permanecido no Monte Athos, sua irmandade não teria crescido por causa da falta de espaço e recursos, e ele não teria exercido nenhuma influência na vida espiritual no monasticismo ortodoxo na Moldávia e na Rússia.

Em São Paísio, a santidade pessoal estava combinada com amor pela educação, habilidade em organizar uma vida monástica cenobítica, habilidade em atrair e ensinar um grande número de estudantes, habilidade em criar uma escola de asceticismo espiritual e, finalmente, talento literário, que o ajudou a completar uma importante e necessária tarefa: corrigir velhas traduções e fazer novas traduções da literatura ascética dos Santos Padres.

São muitas as obras literárias de São Paísio. Ao se deparar com um grande número de erros nas traduções eslávicas dos Santos Padres, ele percebeu a importância de revisá-las com esmero. Assim, ele foi atrás dos originais gregos no Monte Athos. Mas não foi fácil encontrá-los, pois não se encontravam à venda. Por isso, ele teve de transcrevê-las pessoalmente, e pagar para que outros o fizessem. Ele logo percebeu que nem todas as obras dos Santos Padres haviam sido traduzidas para o eslavo. E a segunda parte da tarefa, as traduções em si, ele empreendeu na Moldávia, após ter se mudado para lá com seus monges.

Para termos uma idéia de como esse trabalho era árduo e diligente, basta lembrar que o ancião revisava e corrigia o mesmo texto três ou mais vezes. Mesmo assim, o Pe. Paísio reconhecia a insuficiência disso: “Para minha grande tristeza, vejo que o trabalho está longe da perfeição, e que se o Senhor em Sua misericórdia estender minha vida e me conceder, agora que estou quase cego, a visão necessária, terei de trabalhar ainda mais nessas correções”.

Foi só quando estava próximo do fim de sua vida é que Ancião Paísio conseguiu ampliar o ritmo de traduções e transcrições dos livros dos Santos Padres. Esses livros começaram então a ser disseminados pelos mosteiros do oriente ortodoxo, chegando à Rússia, onde desempenharam um papel excepcional na renovação no monasticismo russo dos séculos XVIII e XIX.

No começo do Cristianismo na Rússia, as sementes da Ortodoxia foram plantadas por Santo Antônio e São Teodósio das Cavernas e seus estudantes, de onde vieram muitos dos primeiros bispos da Rússia; mais tarde, São Sérgio e seus estudantes trabalharam para fortalecer a Ortodoxia; e, finalmente, nos séculos XVIII e XIX, os estudantes de São Paísio Velichkovsky desempenharam um importante papel no renascimento do monasticismo russo e do starchestvo

Os estudantes de São Paísio tiveram grande influência na Santa Montanha, na Moldávia e na Rússia. A Rússia, em particular, foi uma grande fonte de estudantes, sob os quais um amplo renascimento da vida espiritual ocorreu, juntamente com o interesse e o amor pela leitura e pelo estudo; anciãos e superiores tomaram a frente na preservação do legado de São Paísio. É possível distinguir três correntes: a do norte, a central e a do sul. O movimento do norte estava centrado nos Mosteiros de Solovetsky, Valaam, Santo Alexandre Nevsky, Vladimir Guberniya, Optina e, mais tarde, Orlov Guberniya. No sul, nos Eremitérios de Ploshchansky e Glinsky. O círculo de influência de São Paísio era amplo. Na Rússia, influenciou mosteiros em 35 dioceses.

Embora São Paísio tenha vivido no exterior e toda sua atividade tenha ocorrido fora da Rússia, os maiores frutos se deram na Igreja Russa.

É possível detectar um paralelo entre a obra de São Paísio e nosso tempo. Durante a vida de São Paísio, sua obra penetrou na Rússia, onde foi reescrita e publicada – a Philokalia eslava, a obra de Santo Isaque da Síria, e muitas outras. Em condições um pouco diferentes, a mesma coisa acontece hoje. Nossa Igreja Russa no Exterior está levando adiante sua missão, dando frutos na Rússia na forma de obras dos Santos Padres e na literatura eclesiástica em geral, onde há uma carência enorme da Palavra de Deus e de literatura espiritual [este artigo foi escrito em 1992 – N. do T.].

É verdade que há uma grande diferença entre os tempos de São Paísio e o nosso. São Paísio vivia num país ortodoxo, e embora as possibilidades editoriais não existissem na época, era possível transcrever e retranscrever manuscritos e enviá-los à Rússia, a fim de que fossem impressos e disseminados por lá. Hoje, embora vivamos num ambiente heterodoxo, podemos imprimir grandes edições, mas a disseminação da literatura entre nossos irmãos russos é virtualmente impossível. Mas, com a ajuda de Deus, algumas poucas coisas podem ser enviadas daqui, e esperamos que esta pequena quantidade traga frutos multiplicados por mil. Que assim seja, ó Senhor, pelas orações de São Paísio!

Esta é uma pequena biografia das batalhas, lutas e méritos de São Paísio Velichkovsky, o restaurador do monasticismo cenobítico estrito e o fundador do starchestvo no século XIX.

Eis o bem que pode ser feito por uma só pessoa, com a ajuda de Deus. Talvez, entre nossos jovens, encontremos pessoas dispostas a servi-Lo e a servir a Igreja Ortodoxa Russa. Os jovens são necessários, pois nossos mosteiros precisam de sua força, e se a Rússia renascer, ela precisará de pessoas experientes e preparadas. Aos que ouvirem este chamado, respondam!

Este pequeno artigo foi baseado no livro Starets Paisii Velichkovsky [Ancião Paísio Velichkovsky], do Arcipreste Sérgio Chetverikov, e em vários outros artigos.

A glorificação de São Paísio foi levada a cabo pela Igreja Ortodoxa Russa no Exterior, no dia da festa do Santo Profeta Elias, em 20 de julho de 1982, no Esquete Russo de Santo Elias no Monte Athos, fundado por São Paísio. (discipulado).

Tradução de Chapter 58: The Desert Paradise de Father Seraphim Rose: His Life and Works, por Hieromonge Damasceno, pp. 452-463.

Um homem silencioso é um filho da sabedoria, sempre adquirindo muito conhecimento. – São João Clímaco

Nem todo homem quieto é humilde, mas todo homem humilde é quieto. (…) O homem humilde está sempre descansado, porque não há nada que possa agitar ou perturbar sua mente. (…) Eu diria que o homem humilde não é deste mundo. – Santo Isaque o Sírio

Com a pequena chama que queimava em seus corações desde sua tonsura, os padres podiam seguir Pe. Esperidião mais e mais fundo no mistério monástico. Agora eles verdadeiramente começavam a colher os frutos espirituais do deserto.


“Nossa atenção”, Pe. Germano escreve, “gradualmente começou a compreender a vida que diretamente nos rodeava. Nós começamos a ver a realidade mais como ela é, e a não depender da opinião humana. O som do vento, as mudanças do tempo, sua influência no humor, a vida dos animais e pássaros da floresta – era como se até a respiração das plantas e árvores agora tivesse significado. Idéias pacíficas eram semeadas. Os olhos começaram a se acostumar a ver não só o que era externo e saltava até eles, mas a essência da matéria. Embora amigos viessem com amor e tentassem ajudar, eles eram na verdade mais um peso e desde o começo cometiam erros de julgamento simples, preocupando-se com o aspecto externo que passa e não vendo a essência. E com que alegria era o coração cheio quando o silêncio reinava novamente e a loquaz quietude”.

O Ancião Zósimo da Sibéria*, cuja Vida e escritos estavam entre os textos seminais que tinham atraído os padres para a selva em primeiro lugar, uma vez escreveu sobre o deserto: “Como é possível descrever acuradamente todos os sentimentos espirituais internos que são tão doces que nem mesmo um bem-sucedido governo sobre um reino pode dar a mesma alegria e paz como dá a vida deserta! Pois quando você nem vê, nem ouve, nem se associa com o mundo que se extraviou, você encontra paz, e sua mente toda naturalmente aspira a Deus somente. Não há nada na vida deserta que estorve ou distraia alguém de servir a Deus, ler a Santa Escritura, e nutrir sua alma com funda contemplação de Deus. Pelo contrário, todo evento e todo objeto inspiram a lutar na direção de Deus. A densa floresta o cerca e esconde do mundo todo. O caminho para o céu é claro e puro, e atrai seu olhar e inspira seu desejo de ser autorizado a ser transladado naquela bem-aventurança. E se seu olhar se volta para a terra, para observar todas as criaturas e o todo da natureza, seu coração é não menos exaltado com doce amor pelo Criador de tudo, com admiração por Sua sabedoria, com gratidão por Sua misericordiosa gentileza; até o agradável cantar dos pássaros inspira a louvor e canção cheios de oração. Toda a criação leva nosso imortal espírito a se unir com seu Criador!”

“Eu acredito”, escreveu o Ancião Zósimo em outro lugar, “que se alguém parte para o interior do deserto dominado e persuadido por um divino amor por Cristo, verdadeiramente viverá como se no Paraíso”.

Essa se tornou a própria experiência do Pe. Serafim. Pe. Germano relembra como uma vez ele despertou de um terrível pesadelo e correu a contar para Pe. Serafim seus medos. “O que estamos fazendo aqui fora neste lugar?”, exigia. “Isso é loucura!”
Pe. Serafim esfregou o sono dos seus olhos. “Por que, estamos no Paraíso!”, disse ele.

Numa outra ocasião, Pe. Germano lembrou Pe. Serafim de seu livro inacabado, O Reino do Homem e o Reino de Deus, e falou sobre a possibilidade de completá-lo e publicá-lo. Em resposta, Pe. Serafim disse que o Reino do Homem estava degenerando mais rápido que ele tinha esperado. “E quanto ao Reino de Deus”, ele concluiu, “nós o estamos criando aqui. Nós já o temos (…) nós estamos nele”.
A isso, Pe. Germano começou a rir, pensando em suas cabanas primitivas e estrada lamacenta, em sua falta de uma fonte de água, nos morcegos locais, cascavéis e escorpiões. “Não ria”, disse Pe. Serafim. “É verdade”. E com um olhar significativo ele apontou um dedo para o céu.

No Pe. Serafim, como no Pe. Esperidião, Pe. Germano apanhava relances de uma outra vida, uma outra existência. Pela manhã, antes dos ofícios da Igreja, Pe. Serafim tinha uma prática de circular as terras do mosteiro inteiras. Enquanto o fulgor dourado da luz matinal penetrava através da extensa cobertura das folhas de carvalho, Pe. Serafim podia ser visto abençoando e até beijando as árvores.
“O que é isso?”, Pe. Germano perguntava. “Beijando árvores!”
Pe. Serafim levantava os olhos, sorrindo radiantemente, e continuava andando.

Pe. Serafim sabia melhor que muitas pessoas que esta velha terra, prostrada pela decadência do homem, não tinha muito mais para viver, que ela seria “obliterada num piscar de olhos”, transfigurada numa nova terra. E ainda, como Pe. Germano percebeu enquanto o assistia a fazer suas voltas, Pe. Serafim já estava vivendo como se na idade futura. “Ele queria morrer”, Pe. Germano diz, “para se fundir à terra, que será transformada. (…) Para ele, a própria idéia da árvore que ele beijava era ultramundana, pois as árvores foram originalmente criadas incorruptíveis no Paraíso, de acordo com o ensinamento de São Gregório do Sinai”.

De forma a conhecer esse reino transfigurado o qual era a herança do homem desde o princípio, Pe. Serafim estava antes de tudo sendo transfigurado ele mesmo. Todo o objetivo da vida monástica é a transfiguração do velho homem num ser não-terreno, pelo que a Festa da Transfiguração do Senhor no Monte Tabor tem tradicionalmente encerrado tão grande significado para monásticos.

Como Pe. Serafim sabia, entretanto, tal transfiguração não acontece por si mesma. Ele não esperava as virtudes virem naturalmente, mas, vendo sua falta nele mesmo, ele conscientemente trabalhava por adquiri-las, esperando em Cristo para fortalecê-lo. Cada dia requeria constante guerra invisível, vigiando e lutando contra os movimentos interiores do homem caído. Ele era um daqueles sobre quem Cristo disse: O Reino dos Céus adquire-se à força, e são os violentos que o arrebatam (Mt 11, 12). Um dos visitantes ao skete relata: “Pe. Serafim acreditava que a autêntica vida cristã ortodoxa é muito difícil e que se deve agarrar e permanecer nela não apenas firmemente e com toda a sua força, mas com uma certa ‘resistência’ e tenacidade, mesmo uma impetuosidade, porque tudo no mundo, tudo nesta vida, está constantemente tentando levá-la embora e substituí-la por alguma imitação barata. Ele particularmente gostava daqueles santos muito obstinados que somente se mantinham retos na direção, não importando quais os obstáculos. Essa era uma das coisas que ele especialmente admirava no Arcebispo João (Maximovitch), que mantinha sua vida interior intacta, o que quer que estivesse acontecendo à sua volta, e permanecia sempre serenamente indiferente às opiniões dos outros sobre ele”.

Nunca esquecendo a necessidade de forçar-se na vida espiritual cristã, Pe. Serafim vivia de acordo com as seguintes palavras de São Macário o Grande, as quais ele inscreveu em seu diário espiritual: “Vindo ao Senhor, um homem deve forçar-se àquilo que é bom, mesmo contra a inclinação do seu coração, continuamente esperando Sua misericórdia com fé indubitável, e forçar-se a amar quando não tem amor, forçar-se à docilidade quando não tem docilidade, forçar-se à piedade e a ter um coração misericordioso, forçar-se a ser olhado de cima para baixo, e, quando olhado de cima para baixo, a suportá-lo pacientemente (…) forçar-se à oração quando não tem oração espiritual. E assim Deus, observando-o assim lutar e compelir-se à força, a despeito de um coração involuntário, dá a ele a verdadeira oração do Espírito, dá a ele verdadeiro amor, docilidade, entranhas de misericórdia (Col 3, 12), verdadeira gentileza, e em breve o enche com fruto espiritual”.

O meio primário da transformação espiritual é o arrependimento: a consciência do pecado dentro de si mesmo – mesmo o mais sutil – e o desejo pungente de sair dele e mudar. Foi visto como Pe. Serafim, nos primeiros anos da sua conversão, experimentou um processo de fundo arrependimento que o mudou num novo ser. Mas seu arrependimento não terminou aí. Como ele bem entendia, a verdadeira vida espiritual envolve contínuo
arrependimento, e uma correspondente contínua recriação e perfeição do ser interno através da graça de Cristo. Em 1964, não muitos anos após sua conversão, ele tinha discutido isso num de seus “sermões leigos”. Refletindo sobre o Bom Ladrão que, enquanto pendurado na cruz, tinha tomado conhecimento do seu pecado e confessado o Cristo, Pe. Serafim escreveu: “Nós estamos todos, quer percebamos isso ou não, na posição desse ladrão. Como ele, nós fomos condenados por nossos pecados como imerecedores desta vida; como ele nós não temos nada a esperar neste mundo, e nós só encaramos sofrimento e uma morte miserável, se não esperamos por nenhuma outra vida além desta. Mas se, como ele, mesmo em nosso sofrimento e imerecimento nós ainda nos voltamos para o Deus Que condescendeu em compartilhar nossa fraqueza humana, até uma tão ignominiosa morte, e acreditamos que Ele tem o poder de cumprir as promessas que Ele fez a nós – então nossa condenação é revogada, nossos pecados perdoados, nosso imerecimento despercebido, e nossa dor e pesar e morte engolidos em vitória e alegria e vida eterna”.

Todo ano durante a Grande Quaresma, Pe. Serafim tentava reler o conjunto das Confissões do Abençoado Agostinho, e todo ano ele chorava pelo profundo arrependimento de Agostinho. Pelas porções que ele sublinhou no livro, fica claro que Pe. Serafim via sua própria vida na história da conversão do Abençoado Agostinho do pecado e da rebelião à fé. Em muitas passagens as semelhanças são marcantes, como se fosse Pe. Serafim e não Agostinho que estivesse escrevendo sobre seu passado.
Por humilhar-se através de guerra não-vista e arrependimento, Pe. Serafim estava melhor capacitado a dar glória a Deus e apreciar a grandiosidade da Sua criação. Para Pe. Serafim, a apocalíptica transfiguração do mundo caído começava agora mesmo, dentro dele mesmo. Através de um processo de gradual purificação, em contrição, oração e vigilância espiritual, o Paraíso começava a florescer em seu coração. O Reino de Deus estava de fato dentro dele.

Quando Pe. Germano assistia seu colaborador andando através dos bosques absorvido em pensamento, ele pensava: Agora eis um que pertence a este lugar. Em vez de murchar em solidão, ele se eleva aqui. Ele tem um mundo próprio, e estar aqui somente desprende esse mundo.

Pe. Germano também notou que Pe. Serafim estava sempre alegre: não demasiado feliz – só alegre. Os santos, Pe. Serafim uma vez explicou, “estão num estado de profunda felicidade, porque eles estão constantemente olhando acima e mantendo em mente, com determinação e constância, chegar a um certo lugar, o qual é o céu; e assim eles vêem todos os detalhes do mundo a essa luz. Se o que eles vêem tem a ver com o mal, com as redes de demônios, com mundanidade, com aborrecimento, com desencorajamento, ou só com detalhes ordinários da vida, tudo isso é secundário e nunca permitido em primeiro lugar”.

Como Pe. Germano disse, “Pe. Serafim não tinha interesse no mundano; ele nunca se esquecia de que havia um outro mundo. Ele podia imediatamente determinar o que valia a pena e o que não, e totalmente ignorava e descartava coisas baixas, baratas. Isso não era nem deliberado da sua parte; tinha se tornado automático. Ele tinha a força de caráter para concentrar somente no que era necessário. Daí eu podia ver que ele tinha estado praticando guerra não-vista muito antes de eu tê-lo conhecido”.

O que mais maravilhava Pe. Germano era que Pe. Serafim nunca falava uma palavra desnecessária. “Um homem inteligente”, afirmou Santo Antônio o Grande, “é um que se conforma a Deus e se mantém ao máximo silencioso; quando ele fala, diz muito pouco, e somente o que é necessário e aceitável a Deus”.

Pe. Germano estava acostumado a conversar longamente sobre assuntos particulares relacionados a sua vida e trabalho; e Pe. Serafim, valorizando a transmissão dos santos mestres que seu colaborador concedia, pacientemente absorvia isso tudo em silêncio. Pe. Germano pensava que esse era o fim; mas de vez em quando ele ficava surpreso quando Pe. Serafim mais tarde se aproximava com uma pérola de afirmação que cristalizava a própria essência do que ele tinha estado tentando dizer com tantas palavras.

“Eu podia ver”, Pe. Germano relembra, “que não somente sua mente estava trabalhando, mas seu coração estava envolvido, e seu coração captava aquelas coisas que você simplesmente não pode pegar, como ser racional, dos livros. Ele estava num nível diferente de pensamento. Ele pensava muito e orava muito, e de alguma forma a Mãe de Deus estava envolvida nesse processo. As coisas estavam abertas para ele, mas ele não podia falar delas porque os outros não entenderiam. Por isso ele dizia tão poucas palavras, mesmo quando eu urgia que ele revelasse os frutos da sua contemplação”.

Pe. Germano lembra um misterioso incidente das suas primeiras associações com Pe. Serafim, antes da fundação da Irmandade, quando eles passaram a noite na praia perto de uma fogueira. As estrelas estavam fora, e eles podiam ver as bóias tremeluzindo no horizonte. Pe. Serafim sentou-se por horas olhando para o mar, sem dizer uma palavra. Então ele se voltou e olhou para Pe. Germano pelo canto do seu olho. Seu rosto estava muito sério. “Eu conheço você”, ele disse. “Eu conhecia você antes. Eu sabia que você estava vindo”.

Pe. Germano sabia que essas palavras nada tinham a ver com “reencarnação”, pois em suas conversas com Pe. Serafim sobre aquele assunto ele achou suas visões inteiramente ortodoxas. Antes, suas palavras revelavam que ele estava vendo a realidade de um nível mais alto, como ela estava em relação à eternidade. Uma vez Pe. Germano perguntou a Pe. Serafim como as pessoas podiam profetizar o futuro, e o último disse a ele precisamente isso, que tinha a ver com ver de uma perspectiva mais alta.

“Quando você está alto no céu”, Pe. Germano explica, “pode ver um homem vindo, horas antes dele alcançar seu destino. Quando naquela noite Pe. Serafim disse que ele tinha me conhecido antes, foi porque ele tinha visto minha entrada na sua vida de uma outra perspectiva, vinte milhas alto no céu. E isso fez sentido para ele.
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“Ele não estava em casa no mundo, ele não tinha desejo pela vida como eu tinha; e por isso é que ele podia ir tão alto – dentro da superconsciência”.

Pe. Serafim falava muito freqüentemente sobre “a Verdade”, e toda vez parecia ao Pe. Germano que ele não estava falando sobre um mero princípio ou conceito, mas sobre uma Pessoa vivente. Uma vez Pe. Germano encontrou Pe. Serafim orando sozinho na igreja, ferventemente implorando a Deus em seus joelhos. Quando ele perguntou a Pe. Serafim sobre que ele estava orando, este disse que o mundo estava dando as costas à Verdade, e a Verdade estava diminuindo nos corações dos homens. Pe. Germano se maravilhou de que seu colaborador estivesse pensando em tais termos, que ele estivesse mesmo orando sobre a Verdade.
Observando a contemplação silenciosa de Pe. Serafim, Pe. Germano dizia a ele meio brincando: “Você é um hesicasta!” – significando um “silencioso” engajado na direta contemplação da Divindade. Pe. Serafim, porém, não gostava desse termo aplicado a ele mesmo. Ele até ficava indignado, dizendo: “Eu não sei o que isso significa”. É claro que ele sabia intelectualmente, mas ele não queria fingir entender isso por experiência. Ele detestava pose e falsificação de qualquer tipo. Para ele, a vida espiritual tinha que ser antes de tudo pé no chão, cheia de humildade e uma sóbria consciência do próprio baixo estado espiritual. Nos seus dias mais juvenis ele tinha escrito: “Aquele que se acha auto-suficiente está na armadilha do diabo; mas o tal homem que pensa ainda que ele é ‘espiritual’ se tornou quase um ativo cúmplice do diabo, quer ele perceba isso ou não”.

Em seu amor à Verdade, Pe. Serafim se apegava acima de tudo à sobriedade (nipsis), vendo a realidade como é na verdade. O próprio Pe. Serafim explicou esse como o estado de Adão no Paraíso. “Adão”, ele disse, “estava num estado de sobriedade. (…) Ele olhava para as coisas e as via do jeito que eram. Não havia ‘pensamento duplo’ como nós temos em nosso estado caído: olhando para as coisas e imaginando algo mais”.

Os santos e ascetas têm demonstrado que é de fato possível recuperar o estado em que Adão vivia antes da queda; e assim foi que eles conseguiram viver em desamparados e proibidos desertos como se no Éden. Pe. Serafim se aproximava desse estado em simplicidade de coração. Não havia “pensamento duplo” de olhar para si mesmo e imaginar-se “espiritual”. Quanto mais perto ele chegava do incorruptível Paraíso, mais ele sentia que não o merecia.

Padre Serafim estimava todo dia que lhe era dado passar na floresta. Ele se sentia como o habitante de desertos russo, São Cirilo do Lago Branco (†1429), que, tendo encontrado o ponto selvagem que a Mãe de Deus tinha dado a ele para a salvação de sua alma, tinha declarado: “Aqui é o meu repouso para sempre, aqui habitarei” (Sal 131, 15). Em 1972 Pe. Serafim escreveu para seu padrinho Dimítri: “Sim, eu me lembro da nossa Páscoa juntos, e também nossas caminhadas ao redor do Monte Tamalpais (uma vez no Segundo Domingo da Quaresma, eu acho). E agora Deus nos conferiu a grande satisfação de poder viver em tal atmosfera todo o tempo. Profundamente eu tenho grande alegria, e se às vezes eu fico sobrecarregado com trabalho, tenho apenas que dar uns passos para o lado de fora de forma a mais uma vez ‘rejubilar no Senhor’”.

Pe. Serafim exprimiu palavras similares de gratidão em dezembro de 1974, quando foi deixado sozinho no ermitério por uns poucos dias, “derivando inspiração”, como ele disse, “da Vida do Ancião Macário de Optina”. “Tarde na noite passada”, ele anotou, “nossa primeira nevada da estação começou, e hoje ao meio-dia há dez polegadas sobre o solo, com a perspectiva de dezoito polegadas pelo anoitecer se isso se mantiver. Belo e inspirador e estamos constantemente gratos a Deus por nos dar um tal ‘deserto’. Que ele seja frutífero!”
Mesmo que apenas por um dia, Pe. Serafim não gostava de deixar seu lugar de salvação. Quando ele tinha que dirigir até a cidade, ele dava conta disso o mais rápido possível, dirigindo veloz nas estradas de montanha, executando as específicas tarefas sem se demorar por um momento, e voltando para casa imediatamente. Ele especialmente não gostava de ir a São Francisco. Após terem ido lá para a celebração do Natal em 1970, os padres decidiram nunca fazê-lo novamente. De acordo com a tradição do deserto de São Sérgio de Radonezh e outros, eles desde então celebraram Natal e Páscoa sozinhos em seu skete, indo a uma paróquia receber a Santa Comunhão, ou pouco antes ou depois dessas Festas. Em geral, eles iam a São Francisco só uma vez por ano, para a Liturgia no Sepulcro do Arcebispo João no dia do seu repouso.

Em A Palavra Ortodoxa Pe. Serafim escreveu: “O cristianismo é prática, e o monasticismo acima de tudo, é uma questão de ficar num lugar e se empenhar com todo o seu coração pelo Reino do Céu. Alguém pode ser chamado a fazer a obra de Deus em outro lugar, ou pode ser deslocado por inevitáveis circunstâncias; mas sem o básico e profundo desejo de suportar tudo por Deus num lugar sem fugir, dificilmente poderá fincar as raízes requeridas para produzir frutos espirituais. Infelizmente, com a facilidade das comunicações modernas alguém pode até assentar num ponto e ainda concernir-se com tudo, menos a única coisa necessária – com os negócios de todos os outros, com toda a fofoca de igreja, e não com o trabalho concentrado necessário para salvar sua alma neste mundo mau.

“Numa famosa passagem dos Institutos, São Cassiano alerta os monges do seu tempo para ‘fugir de mulheres e bispos. (…)’ Mulheres, é claro, tentam por meio da carne, e bispos por meio da ordenação ao sacerdócio e em geral pela vanglória das relações com aqueles em altas posições. Hoje esse alerta continua oportuno, mas para os monges do vigésimo século pode-se adicionar mais um alerta: Fuja de telefones, viagens, e fofoca – aquelas formas de comunicação que mais que tudo ligam alguém ao mundo – pois eles vão esfriar seu ardor e fazê-lo, mesmo em sua cela monástica, o brinquedo de influências e desejos mundanos!”

Como Lao Tzu, o filósofo favorito dos dias antigos de Pe. Serafim, tinha colocado: “Quanto mais alguém viaja, menos sabe”.
Uma vez Pe. Germano perguntou a Pe. Serafim se havia qualquer lugar no mundo aonde ele quisesse ir.

“Não”, replicou Pe. Serafim.
“Por que não? Você não quer nem ir ao Monte Athos?”

“Nós devíamos lutar, segundo o conselho do Bispo Inácio Brianchaninov, para ter o Monte Athos em nossos corações. Na verdade, estamos trabalhando para ter nosso próprio Monte Athos na América. O único problema é que não há muito tempo restante”.

Em sua leitura dos Santos Padres, Pe. Serafim encontrou muitas passagens que falavam da virtude da estabilidade, isto é, de ficar num lugar. A maioria desses conselhos vem de um contexto monástico, mas, como Pe. Serafim discernia, eles eram pertinentes não só a monges. Anthony Arganda, que disse a Pe. Serafim que queria se casar e criar uma família, lembra de Pe. Serafim dizer que os conselhos monásticos sobre a estabilidade podiam também ser aplicados a leigos em paróquias: “Pe. Serafim enfatizou para mim que, se alguém pula por aí de lugar em lugar, prejudica sua habilidade de fincar raízes. Se a vida em seu mosteiro não é tão ascética e focada como em outro mosteiro, ele disse que é melhor ficar ali do que saltar por aí. Do mesmo modo, se na sua paróquia o nível espiritual parece não ser muito alto, as confissões são perfunctórias, o coro canta fora de tom, etc., é melhor permanecer aí do que trocar para uma paróquia onde tudo parece estar num nível mais alto. Onde quer que você esteja, é aí que você devia trabalhar por sua salvação, em vez de vaguear por aí, procurando pela perfeita expressão de ortodoxia, a mais elevada espiritualidade, o perfeito starets, etc. Pe. Serafim disse-me que estabilidade e lealdade são grandes virtudes. O que é mais agradável a Deus, ele disse, é sua perseverança, sua humildade em trabalhar por sua salvação onde Ele o colocou”.

Algumas pessoas, vindo de cidades alvoroçadas, ficavam admiradas de que um tal lugar como o ermitério de Platina pudesse existir na América moderna. Um jovem visitante tinha uma expressão de absoluto espanto enquanto passava pelo portão do mosteiro. Ele viu os dois monges, em gastas vestes negras, com longos cabelos e barbas, e atrás deles os silenciosos bosques e poucas pequenas construções. Enquanto os padres conversavam com ele, ele continuava olhando ao redor para a floresta, escondida do mundo, onde as orações de monges na antiga tradição da Igreja estavam ainda subindo até Deus. Ele perguntou aos padres se ele podia dar uma caminhada ao redor do ermitério. Enquanto Pe. Serafim assistia o visitante descer a trilha num estado de óbvio enlevo, ele se voltou para Pe. Germano e disse: “Aquele é o nosso tipo de homem!”

Sobre tais pessoas, os padres estavam acostumados a dizer que elas “pegavam o ponto”. Mas esse “ponto”, que os padres nomeavam o “ideal do deserto”, não era tão fácil de propagar. Pe. Germano tinha feito uma tentativa, publicando um relato de sua peregrinação aos sketes selvagens do Canadá. Um jovem russo tinha sido tão tomado por esses artigos que tinha decidido visitar os sketes por ele mesmo. Poucos meses mais tarde, porém, quando ele veio ao Ermitério de São Germano pela primeira vez, ele contou aos padres do seu desapontamento. “Você fez os sketes canadenses soarem tão maravilhosos”, ele disse enquanto passeava com os padres até o topo de Noble Ridge. “Suas descrições eram tão poéticas. Mas quando fui lá, não havia nada – só umas poucas cabanas rudes e poucos velhos monges e freiras russos. Em pouco tempo eles todos estarão mortos e não haverá nada restante. Por que você construiu uma coisa tão grande naquilo? Isso não é verdadeiro!”

“Bem, eu admito isso”, Pe. Germano respondeu. Ao escrever sobre todos os lugares santos na América, ele explicou, tinha querido apresentar aos leitores o potencial da santidade ortodoxa em sua terra, para inspirar os jovens a trabalhar para alcançar aquele potencial. “As sementes do monasticismo do deserto já foram plantadas na América e elas estão sendo nutridas, de uma pequena forma, pelos velhos homens e mulheres que você viu naqueles dilapidados sketes. Se a sua tradição morrer, não será culpa deles, pois fizeram sua parte, se esforçando e orando sozinhos na selva. Em vez disso, será culpa da nova geração de cristãos ortodoxos que não valorizaram o legado transmitido a eles”.

À noitinha, depois que o jovem tinha ido, os padres estavam sentados sozinhos no refeitório. Querendo reafirmação, Pe. Germano começou uma de suas lamentações. “Qual o uso de todo o nosso trabalho pelo ideal do deserto?”, ele perguntou. “É tão difícil para as pessoas aceitarem ou mesmo entenderem. É como se houvesse algum segredo nisso que as pessoas não conseguem captar somente lendo a respeito. Talvez isso realmente esteja além da capacidade da juventude americana contemporânea. Nós damos a eles todas essas imponentes mensagens para inspirá-los, mas quando vêem a realidade, que isso significa uma vida de esforço e privação sem todos os confortos e conveniências modernos, sua resolução enfraquece e eles desistem. Então, no final, há realmente algum objetivo para o que estamos fazendo aqui?”

“Você certamente expressou a resposta para isso eloqüentemente no topo de Noble Ridge hoje”, replicou Pe. Serafim. “Temos de responder por nós mesmos. A geração passada fez a parte dela. Façamos a nossa”.
A coisa mais difícil de aceitar para muitos visitantes era a falta de um telefone no ermitério. Valentina Harvey, que vivia na cidade de Redding, cerca de quarenta e cinco milhas a leste do ermitério, era particularmente preocupada com isso. Uma vez, falando disso ao Bispo Nectário, ela disse: “Aqui estão esses dois monges vivendo nos bosques, com frio e em necessidade. Eu trabalho para a companhia de telefone; eu até conheço os empregados que instalam e mantêm as linhas de telefone em Platina; e eu estive tentando convencer a companhia a instalar um telefone no mosteiro livre de taxas. Mas quando contei ao Pe. Germano sobre isso, ele disse: ‘Sobre nossos cadáveres!’ Por que essa recusa?”

Bispo Nectário sorriu, e respondeu contando uma história. “Próximo ao Mosteiro de Optina”, ele disse, “havia um rio separando-o da cidade próxima. O único contato com o mosteiro era através de uma balsa. Isso causava muita inconveniência, tanto por causa das estações mutáveis e porque o mosteiro estava crescendo rápido, com um grande influxo de visitantes. Os monges e abades, porém, não construíam uma ponte. Finalmente, os citadinos se juntaram e ofereceram para construir uma ponte de graça. Os monges recusaram categoricamente, explicando que eles tinham deixado o mundo e não queriam ter laços fáceis com ele. Esse laço com o mundo é representado tanto pela ponte em Optina quanto pelo telefone em Platina. Quando os soviéticos tomaram a Rússia, eles imediatamente construíram uma ponte e fecharam o Mosteiro de Optina”.

Não eram apenas leigos que não entendiam o desejo dos padres de evitar fácil contato com o mundo. Pe. Panteleimon, cujo mosteiro ficava numa impressionante mansão num subúrbio de Boston, também expressou alguma desaprovação. Numa de suas visitas ao ermitério de Platina ele disse aos padres: “Vocês têm um maravilhoso mosteiro aqui, mas ele não poderá existir do jeito que é porque garotos americanos simplesmente não podem viver sob tão austeras condições”.
“Como podemos fazê-las mais fáceis?”, perguntou Pe. Germano, pensando que Pe. Panteleimon sugeriria encanamento, aquecimento central, eletricidade, ou alguma outra conveniência.

“Você deve arranjar um telefone, caro padre”, respondeu Pe. Panteleimon.
“Mas por que um telefone?”
“Para você poder me contatar”.
“Como isso vai fazer a vida menos austera?”
“Porque então eu posso dizer o que vocês precisam”.
De pé no fundo, Pe. Serafim olhou para Pe. Germano com surpresa. “Por que devemos ter um telefone para ficar em contato com ele?”, ele perguntou após Pe. Panteleimon ter deixado o recinto.
“Responda você mesmo!”, replicou Pe. Germano.
“Vamos esquecer isso”, Pe. Serafim concluiu.

À partida do Pe. Panteleimon, os padres tocaram os sinos do mosteiro e saíram pelo portão para se despedirem. Voltando ao ermitério após o carro ter sumido de vista, Pe. Serafim não parecia satisfeito.

“O que no mundo está errado?”, inquiriu Pe. Germano, incitando uma reação do Pe. Serafim. “Pe. Panteleimon é uma das figuras monásticas ortodoxas principais na América, e ele veio todo esse caminho para visitar-nos pobres idiotas no meio de lugar nenhum”.
“Se não é nosso tipo de monasticismo”, Pe. Serafim disse enfaticamente, “eu não quero isso!”

Padre Serafim não estava interessado no monasticismo de acordo com o jeito que o mundo pensa que devia ser: monges andando por aí agindo espiritualmente, provendo para visitantes admirados um confortável, conveniente e razoavelmente planejado “centro de retiro”. No ermitério de Platina, os padres nem terminaram suas construções. Eles construíram só o suficiente para manter vento e chuva fora – e mesmo nisso não eram sempre bem-sucedidos. Como mencionado anteriormente, sua intenção nunca tinha sido construir um lugar estabelecido, mas somente um sítio de esforço cristão durante sua muito breve peregrinação neste mundo. Mesmo sua igreja nunca foi inteiramente terminada. Seu escuro interior de madeira dava a ela um aspecto aconchegante e caloroso – mas era impossível aquecê-la durante o inverno. “Há uma certa opinião no ar”, Pe. Serafim relatou, “de que é claro que quando você vem à igreja deve estar aquecido, porque você não pode pensar em ofícios de Igreja e preparar-se para a Comunhão quando tem que pensar em pés frios. As pessoas nos dizem isso. ‘É um empecilho muito grande’, elas dizem. ‘Você não pode ir e ficar com os pés frios e esperar nenhuma espiritualidade aparecer’. Acontece de haver essa opinião, e ela está totalmente errada. Os Santos Padres têm vivido através dos séculos em todos os tipos de condições; e, embora não haja o plano deliberado de se torturar com pés frios – ainda, isso é algo que ajuda a fazer alguém um pouco mais sóbrio quanto à vida espiritual, talvez ajude a apreciar o que se tem, e não só tomar por garantido que se vai estar confortável e aconchegante e só”.

Pe. Germano relembra como, quando ele uma vez reclamou da igreja fria, Pe. Serafim disse a ele que estava convencido de que quanto mais ele sofria na igreja fria, mais perto ele chegava das vidas dos próprios ascetas sobre quem ele estava cantando. Enquanto isso acontecia, ele disse, ele sentia o frio menos e menos.

Enquanto o conceito moderno de um “retiro” geralmente se vincula à expectativa de divertimento espiritual, descanso e relaxamento, o conceito ortodoxo de peregrinação é algo bastante diferente. Cristãos ortodoxos têm tradicionalmente feito peregrinações a lugares santos como um podvig de arrependimento purificante, tomando para si voluntárias durezas a ponto de viajar por muitas centenas de milhas a pé. Aqueles que se beneficiaram mais das visitas a Platina não queriam férias, mas antes a chance de agüentar um pouco de dureza, rejeitando o constante auto-mimo do estilo de vida americano.

Era muito oneroso para Pe. Serafim ter que lidar com visitantes casuais que vinham do mundo “só para dar uma olhada”. Ele se sentia obrigado a ser educado e recebê-los em nome de Cristo; mas, como Pe. Germano notava, tais obrigações “faziam-no ficar verde”. Pe. Germano tinha que “resgatá-lo” tirando essas pessoas de suas mãos. Tremendamente aliviado, Pe. Serafim fazia o sinal da cruz e voltava para sua cela monástica para trabalhar em seu próximo artigo.

Uma mulher que veio ao ermitério ficou positivamente escandalizada por ele. Acompanhada por um relutante Pe. Serafim, ela perambulava pelas terras do mosteiro num flamejante vestido vermelho. “Que aborrecida sua vida deve ser aqui!”, ela exclamou. “Sem televisão, sem rádio, nem mesmo um telefone! Como vocês podem agüentar isso?!”

“Nós somos muito ocupados aqui”, Pe. Serafim replicou. “Não temos tempo de ficar aborrecidos”.

Mais tarde, quando essa mulher tinha partido para sua casa na cidade, Pe. Serafim fez esta observação para Pe. Germano: “A cidade é para aqueles que estão vazios, e ela expulsa aqueles que estão cheios. O deserto mantém aqueles que estão cheios e permite-lhes desenvolverem-se”.

* canonizado pela Igreja Ortodoxa Russa (Patriarcado de Moscou) em 2000.

por Padre Elie K. Stephan


A  festa da Natividade na carne de nosso Senhor Jesus Cristo foi estabelecida pela Igreja. A sua origem volta ao tempo dos Apóstolos. Nós lemos no livro de Constituições Apostólicas (século II) sessão 3, 13: “irmãos, observem os dias festivos; em primeiro lugar o Nascimento de Cristo”. Em outro lugar diz: “Celebrai o dia da Natividade de Cristo, no qual a graça invisível foi dada a nós com homem através do Nascimento do Verbo de Deus da Virgem Maria para a salvação do mundo.

No século II, São Clemente de Alexandria indica que o dia da Natividade de Cristo é 25 de Dezembro. No século III, são Hipólito de Roma menciona a Festa da Natividade de Cristo a aponta a leitura do Evangelho para esse dia do primeiro capítulo de São Mateus.

No ano 302, durante a perseguição dos cristãos por Maximiano, 20000 cristãos de Nicomédia foram queimados na igreja na festa da Natividade de Cristo. Logo depois dessa perseguição o Cristianismo recebeu a liberdade de exercer a sua religião e ficou a religião oficial do Império Romano. A partir daí, a festa da Natividade passou a ser observada e celebrada pela Igreja inteira. Nós encontramos muitas indicações nos escritos de vários padres do século IV: São Efrém, o Siríaco; São Basílio, o Magno; São Gregório, o Teólogo; São Gregório de Nissa; São Ambrósio de Milão; São João Crisóstomos e outros.

A data de 25 de dezembro era uma festa mundana dos gentios na qual comemoravam o dia do deus Sol. Nesta festa era praticado todo tipo de rituais imorais de ponto de vista cristão. Para impedirem a freqüência de muitos cristãos a esta festa de um lado, e para combaterem a idolatria, de outro lado, os padres da Igreja fixaram a data do Nascimento de Jesus neste mesmo dia. Assim fazendo, a Igreja conseguiu ao longo de tempo acabar com a adoração dos astros e pregou ao mundo que o Sol Verdadeiro “que ilumina todo ser vindo ao mundo” é o Nosso Senhor Jesus Cristo. Eis o que diz o Tropário da festa:


Teu nascimento, ó Cristo, nosso Deus, fez brilhar no mundo a luz da Sabedoria; e, graças a uma estrela, aqueles que adoravam os astros aprenderam a adorar-te, Sol de Justiça, e ao conhecer em Ti o Oriente que vem do alto: Glória a Ti, Senhor.

No seu sermão que proferiu no ano 385, São João Crisóstomo afirma que esta festa (Natividade) é muito antiga. No século VI, o imperador Justiniano estabelece a celebração da Natividade de Cristo no mundo inteiro. (conforme o Nikephoros Kallistos: escritor do século XIV)

Nos primeiros três séculos, a festa da Natividade era celebrada junto com a da Epifania (Manifestação de Deus), batizado de Jesus por João Batista, no dia 6 de Janeiro nas igrejas de Jerusalém, Antioquia, Alexandria e Chipre. Isso foi devido à crença de que Cristo foi batizado no aniversário de Seu Nascimento. Tal idéia podemos deduzir das palavras de São João Crisóstomo no seu sermão sobre a Natividade de Cristo: “o dia que é chamado Teofania não é o dia em que Cristo nasceu, mas é aquele dia em que Ele foi batizado”. Em comparação a isso, citamos as palavras do Evangelista Lucas onde diz: “Jesus começou a ser de quase trinta anos” (Lc.3, 23) quando foi batizado. A junção das duas festas continuou até o final do século IV em algumas igrejas orientais e até o século V ou VI em outras. Hoje em dia, algumas igrejas continuam a celebrar as duas festas (Natividade e Teofania) na mesma data: 6 de Janeiro, tais como a Igreja Russa, a Igreja Armênia, A Igreja Siríaca…

A época que precede o Natal, o Advento, é uma época de jejum que começa no dia 15 de Novembro e vai até o dia 25 de dezembro, como preparação do corpo e da alma para recebermos a comunhão nesta festividade tão importante para nós homens.

A Natividade de Cristo é considerada como uma das doze festas mais importantes. Ela é a festa que traz a maior felicidade e maravilhas na história humana. O anjo disse aos pastores: “Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria, que é para todo o povo: Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é Cristo Senhor. Este será o sinal: encontrareis o menino envolto em panos e deitado numa manjedoura”. Imediatamente juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados”. Assim que os anjos se foram para o céu, os pastores disseram uns aos outros: “Vamos até Belém, para ver o acontecimento que o Senhor nos deu a conhecer”. Foram depressa e encontraram Maria, José e o menino deitado numa manjedoura. Vendo-o, contaram as coisas que lhes foram ditas sobre o menino. Todos que ouviam isto, maravilhavam-se do que lhes diziam os pastores. Maria conservava todas essas coisas, meditando-as em seu coração. Os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora dito” (Lc.2, 10-20). Assim, a Natividade de Cristo, o evento extraordinário mais profundo, fora acompanhado pelas coisas maravilhosas proclamadas para os pastores e para os magos. Esta é a causa da alegria de gênero humano inteiro: “Pois o Salvador nasceu”.

Todos os anos, o Mosteiro de São Germano do Alaska publica um calendário ortodoxo bastante completo e rigoroso, e que sempre vem acompanhado de um artigo interessante. Em 2006, o calendário veio com a história da Igreja Ortodoxa em terras germânicas, um artigo que certamente interessará a todos os alemães e seus descendentes ortodoxos. Tenho esperança que este relato inspirará a todos os leitores ortodoxos a buscarem nesses desconhecidos santos suas intercessões junto ao Cristo.

* * *

I. A Igreja Ortodoxa no Ocidente

Muitos povos ocidentais, tanto ortodoxos quanto não-ortodoxos, identificam a Ortodoxia com as igrejas nacionais do Leste Europeu e do Oriente Médio. As pessoas que habitam países ocidentais podem não perceber, mas vivem sobre terra santa na qual repousa um vibrante legado cristão que, por séculos a fio, foi idêntico em espírito e praticamente indistinguível na prática do Cristianismo Oriental.

Em maior ou menor grau, o verdadeiro Cristianismo Ortodoxo já esteve presente nas terras onde hoje se fala o idioma alemão, desde os primeiros dias do surgimento de nossa fé até os tempos do grande cisma de 1054. É possível descobri-lo em velhos documentos e estudos arqueológicos e artísticos, mas também é possível experimentá-lo na veneração de relíquias sagradas, onde quer que tenham sido preservadas e honradas, bem como na leitura das vidas dos santos, escritas por seus discípulos e que não foram posteriormente embelezadas.

II. A chegada do Cristianismo

A chegada do Cristianismo em terras germânicas foi um processo gradual, que durou mais de 800 anos. No começo do século I, boa parte da Europa Ocidental era habitada por povos celtas. Os romanos haviam conquistado vastas regiões do continente, começando a fazer incursões na chamada Germania, onde tribos germânicas a haviam colonizado há não muito tempo. Depois que os romanos foram derrotados na Batalha da Floresta de Teutoberg, no ano 9 d.C., seus ambiciosos planos de conquistar toda a Europa Ocidental foram frustrados. Eles tiveram de se assentar à oeste do Reno e ao sul do Danúbio, sendo incapazes de implantar sua civilização na maior parte do que hoje conhecemos por Alemanha. Trata-se de uma informação importante: devido à sua maior acessibilidade, as terras romanas puderam receber o Cristianismo muito antes das germânicas.

Neste artigo, veremos como o Cristianismo Ortodoxo chegou aos países e regiões onde hoje se fala alemão (clique nos mapas ao lado). Devemos ter em mente que esses países não existiam à época do período missionário. Na verdade, tudo aconteceu muito antes que mudanças populacionais, alterações de fronteiras, guerras e desenvolvimentos lingüísticos resultassem na mistura de povos celtas, romanos e germânicos no Ocidente, que falavam o velho francês, e a leste deles uma grande quantidade de reinos que falavam o velho alemão, com o latim sendo usado somente na igreja. E séculos e séculos antes que Alemanha, Suíça, Áustria, Luxemburgo e Lichtenstein surgissem no mapa, mais ou menos com as fronteiras que hoje possuem.

III. O Cristianismo nas fronteiras romanas, na Era dos Apóstolos e Mártires (33-300 d.C.)

Nos primeiros três séculos, o Cristianismo espalhou-se rapidamente por todas as direções, a partir de Jerusalém. Os primeiros apóstolos e seus discípulos transmitiram o que haviam visto, ouvido e experimentado – a vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo e Seus ensinamentos. A esperança que isso engendrou naqueles que tocou, juntamente com a vida que os primeiros cristãos levavam, que era bem diferente daqueles à sua volta, foi contagiosa. Em primeiro lugar, ela se espalhou por famílias judaicas de todo o Império Romano para, em seguida, espalhar-se família a família entre os gentios. Da mesma maneira, atingiu regiões do Império Romano conhecidas como Gália (atual França e regiões alemãs do Reno e de Moselle), Nórico (sul da Bavária e norte da Áustria) e Récia (Suíça e partes da Alemanha). Há indícios em muitos locais de que discípulos dos apóstolos foram enviados a esses territórios (ou através deles), embora não tenhamos registros escritos disso. Na Suíça, dizem que São Beato teria sido batizado em Roma pelo Apóstolo Barnabé e enviado em missão à Suíça pelo Apóstolo Pedro. Há tradições similares segundo as quais discípulos do Apóstolo Pedro teriam chegado a Trier e Colônia, na região do Reno.

Muitos cristãos chegaram às fronteiras romanas, tanto como parte do exército quanto como funcionários públicos; outros, ainda, eram comerciantes da Grécia e da Síria. Como havia muitos soldados germânicos (e mesmo comandantes) no exército romano, alguns deles também devem ter adotado o Cristianismo. O primeiro milagre ocorrido num país germânico resultou de orações feitas no exército romano. Em 11 de junho de 172, no atual norte da Áustria, o exército romano caiu numa cilada, ficando sem água num dia quentíssimo, enquanto lutava contra os bárbaros marcomanos e quades. O exército estava para sucumbir ao calor quando, em resposta às orações dos soldados cristãos, Deus enviou uma tempestade que refrescou os romanos e aterrorizou os bárbaros, tendo sido fragorosamente derrotados.

Embora a perseguição aos cristãos não fosse tão feroz no Ocidente quanto no Oriente, havia mesmo assim períodos de perseguição. Em 177, muitos foram martirizados em Lyons (França); é quase certo que havia comunidades cristãs em cidades ao longo do Reno, tais como as cidades (alemãs) de Colônia e Mainz, portanto é muito provável que algo similar lá aconteceu. Perseguições a cristãos também ocorreram durante o governo do Imperado Diocleciano Maximiano (início do século IV). À época, entre aqueles que deram suas vidas pela fé estão São Maurício e a Legião de Tebas, cristãos africanos que foram martirizados na atual Suíça; outros membros dessa legião estavam estacionados em outros locais, incluindo Colônia, Bonn e Xanten (Alemanha); o Mártir Afra de Augsburgo; Santa Úrsula, a mártir-virgem de Colônia, juntamente com seus companheiros; e o Soldado-Mártir Floriano e seus 40 companheiros em Lorsch (Áustria).

A importância que esses primeiros mártires têm na propagação do Cristianismo e na piedade do povo foi enorme. Assim que o Imperador Constantino acabou com a perseguição aos cristãos em 313, igrejas foram construídas sobre os locais onde repousam os mártires, tornando-se pontos importantes de peregrinação. As pessoas neles se ajuntavam em busca de consolação e cura, sabendo que eles eram seus heróis espirituais e que deram seu último sacrifício em sua própria terra.

IV. De Constantino às invasões bárbaras

No começo do século IV, a jovem Igreja era vibrante em termos de fé, mas pequena em número. Ela se fazia representar em todas as cidades do Império Romano, mas as reuniões se davam em igrejas caseiras e eram materialmente pobres – seu clérigo freqüentemente se via obrigado a sustentar-se com empregos seculares. Isso estava para mudar no governo de Constantino. Após ter derrotado Maxêncio em 312, sob o sinal da Cruz que vislumbrara numa visão, ele cessou a perseguição aos cristãos e começou a apoiá-los. Durante sua vida, ele concedeu liberdade, subsídio e imunidade à Igreja, convocando o Primeiro Concílio Ecumênico a fim de estabelecer a unidade entre os cristãos.

Durante alguns anos, Constantino, assim como seu pai, foi chefe da parte ocidental do Império Romano, que tinha a cidade de Trier (Alemanha) como sua capital. É por isso que temos tantos tesouros espirituais nessa cidade. Sua mãe, Santa Helena, tendo viajado à Palestina e descoberto a Verdadeira Cruz, levou um dos pregos da Cruz a Trier. O Bispo Antióquio, a quem ela havia chamado de Antioquia para servir em Trier, adicionou ao tesouro as relíquias do Apóstolo Matias. A cabeça da própria Santa Helena repousa lá, assim como a sandália do Apóstolo André, as relíquias de Santa Ana, mãe da Santíssima Mãe de Deus, e as relíquias de muitos outros santos.

Embora Constantino não tenha forçado ninguém a se converter, o Cristianismo cresceu rapidamente no seu governo e no de seus sucessores. As pessoas eram atraídas pelo santo exemplo dos cristãos e pelo entusiasmo e apoio mútuo em participar de um grupo cristão. Outras causas para as conversões foram a influência de cônjuges cristãos e os muitos milagres – especialmente os de cura – desempenhados pelas orações dos santos e petições nos túmulos de mártires e ascetas.

No entanto, muitos se tornaram cristãos apenas para usufruir dos favores do Imperador, supondo que o batismo seria o passaporte para o poder e a riqueza. Essa “Era da Hipocrisia” durou cerca de 100 anos. E, apesar disso, tornou-se o ímpeto para o movimento mais puro e verdadeiramente ortodoxo da época: o monasticismo.

V. O monasticismo na Gália dos séculos IV e V

No Egito, muitos homens e mulheres reagiram a esse Cristianismo aguado migrando para o deserto, desejosos de preservar o caráter supramundano da fé cristã que haviam experimentado durante os tempos de perseguição. Em pouco tempo, no Ocidente, pessoas de espírito semelhante leram a Vida de Santo Antônio e as vidas de outros habitantes do deserto, ou, como São Cassiano, trouxeram suas experiências pessoais da vida ascética ao Ocidente, escrevendo livros sobre isso. E o próprio Ocidente tinha seus grandes ascetas: São Martinho de Tours (+397) e aqueles que vieram da ilha-mosteiro de Lerins (início do século V); São Romano (+460) e São Lupicínio (+480), que iniciarem-se como eremitas nas Montanhas de Jura, atual França, sendo que lá e na atual Suíça fundaram vários mosteiros. Todas as partes dos futuros países germânicos foram afetadas por esse movimento: os que buscavam a Verdade sabiam aonde ir a fim de dedicarem-se integralmente a Cristo.

VI. As migrações das tribos germânicas e o fim do poder romano

Esse crescimento do Cristianismo Ortodoxo, pelo menos naquilo que afetou as terras germânicas, experimentou um revés severo no início do século V, quando diversas tribos germânicas – por causa de seu crescimento e expansão e do avanço dos ferozes hunos vindos do leste – invadiram o território romano. Primeiramente, tropas romanas foram retiradas da fronteira germânica para proteger Roma; depois, a própria Roma caiu, decretando o fim do Império Ocidental. Tribos germânicas cruzavam os rios Reno e Danúbio. Para os cristãos romanos, a vida estava sob ameaça. Igrejas eram freqüentemente destruídas e substituídas por templos pagãos, enquanto as atividades missionárias praticamente cessaram. Alguns cristãos se retiraram para fortalezas romanas, chegando a construir igrejas em seus interiores; alguns foram mortos; os cristãos na Áustria agüentaram enquanto puderam, fugindo então para a Itália.

Um extraordinário santo, que surgiu nesses tempos turbulentos para guiar e proteger os cristãos romanos que restaram no norte da Áustria e da Bavária, foi São Severino. Ele apareceu numa pequena vila como humilde peregrino e eremita, rezando na igreja local e vivendo na casa de um velho. Numa determinada ocasião, ele exortou todos a jejuarem, rezarem e darem esmola para evitar uma invasão. Quando eles o ignoraram, ele “sacudiu o pó de seus pés” e mudou-se para uma cidade próxima. Mais tarde, aquele velho com quem morara surgiu nos portões da cidade, muito chocado e temeroso – as previsões de Severino haviam se cumprido; seu estalajadeiro foi o único sobrevivente da primeira cidade. Os habitantes da segunda cidade seguiram os conselhos de Severino e foram poupados de semelhante destruição.

Deu-se início a uma extraordinária missão, na qual toda a região buscava o guiamento de Severino para obter segurança e salvação. Ele fundou mosteiros, aconselhou reis, libertou cativos, alimentou e vestiu o povo. Ele sabia quando a luta seria bem-sucedida ou quando seria melhor fugir. Ele ensinou o povo muitas e muitas vezes a confiar em Deus e não em seus próprios poderes, a ser humilde e generoso com o pouco que tinha. No final, todas as pessoas que sobraram foram reunidas numa área e escaparam em segurança para a Itália.

Também houve mártires de Cristo assassinados pelos bárbaros invasores; conhecemos alguns pelo nome, como os São Crescêncio, São Teonesto, Santo Áureo e São Máximo, todos de Mainz.

O bispo e alguns cristãos permaneciam nas grandes cidades. Eles comumente transmitiam a cultura romana aos bárbaros, e foram respeitados por isso. No entanto, na ausência de militares e funcionários públicos romanos, os bispos assumiam cada vez mais tarefas seculares, resultando numa queda do nível de espiritualidade.

VII. A conversão dos francos

A tribo germânica dos francos vivia nas proximidades, e depois dentro, das fronteiras romanas. Muitos francos serviram no exército e no governo romano, até mesmo em altos cargos. Após o colapso do Império Ocidental, no século V, os francos deram início ao domínio do resto da Gália. Deu-se início ao que poderíamos chamar de “conversão reversa”: ao invés dos conquistadores imporem sua religião à população celto-romana, os francos absorveram e imitaram sua cultura e religião. No começo, isso significava adicionar os deuses romanos aos seus; depois, alguns se tornaram cristãos no governo de Constantino; e , finalmente, no batismo de Clóvis em 498/499, um grande número de seguidores de Clóvis voluntariamente o seguiram nas águas do batismo, e muitos o fizeram mais tarde.

A conversão de Clóvis foi muito significativa para as tribos germânicas que estavam localizadas nas áreas que nunca haviam sido conquistadas pelos romanos. Quando as conquistas de Clóvis continuaram, incluindo grande parte da atual Alemanha e partes da Áustria, abriram-se as portas para ações missionárias nessas regiões, já que estavam sob a proteção de um governador cristão.

VIII. Missionários da Gália

Os primeiros a chegarem nesse novo território missionário foram monges e padres do reino dos francos ocidentais, que haviam sido menos afetados pelas invasões. Do final do século VI até a metade do século VIII, eles restabeleceram o Cristianismo ao longo do Reno, levando-o, pela primeira vez, a outros territórios. Entre eles estavam o Santo Bispo Everglésio de Colônia e São Goar, também do Reno; Santo Emerão, Santo Erhard e São Corbiniano, na Bavária.

IX. Os missionários irlandeses

Na mesma época, missionários irlandeses começaram a chegar. A Irlanda, que nunca havia sido conquistada pelos romanos nem pelos invasores germânicos, recebeu o Cristianismo no século V, principalmente pelas mãos de São Patrício. Corajosos, cultos e extremamente disciplinados em seu asceticismo, os monges irlandeses chegaram ao continente individualmente ou em pequenos grupos, a partir do século VI.

Alguns se assentaram nas florestas, em cavernas ou em ilhas, tornando-se eremitas locais ou santos. Em muitos casos, apenas seus nomes são conhecidos. Outros, como São Columbano, fundaram mosteiros de grande importância. (Ele e seus doze companheiros fundaram três mosteiros na França, sendo que monges ali formados se dispersaram para fundar outros mosteiros na França e Suíça). Seu discípulo, São Gall, homem de grande cultura e humildade, assentou-se nas proximidades do Lago Constance [situado na atual fronteira entre Alemanha, Áustria e Suíça – N. do T.], tornando-se o Iluminador da Suíça e levando o Cristianismo, pela primeira vez, aos povos das montanhas e vales da região. Mais tarde, a famosa Abadia de São Gall foi construída na região por outro santo, Santo Otmar.

O compatriota de São Gall, São Fridolin, atuou de maneira semelhante na região do Alto Reno, convertendo os alemanos, no atual sudoeste da Alemanha. A fé, a sabedoria e as habilidades agrícolas e artísticas que levaram ao continente contrastavam fortemente com o nível de Cristianismo e cultura que lá permanecera, onde as escolas haviam desaparecido por completo e as cidades e estradas romanas estavam destruídas ou mal conservadas. E, obviamente, os vastos territórios que nunca estiveram sob domínio romano - assim como a maioria dos povos que recentemente se assentaram na Gália, Nórico e Récia – eram totalmente estranhos à vida cristã.

Por 500 anos, os irlandeses continuaram a migrar, freqüentemente formando a espinha dorsal da ortodoxia, da santidade e da renovação cristãs, além de preservarem os tesouros culturais com suas habilidades artísticas e literárias. Diversos santos famosos nas terras germânicas provavelmente eram irlandeses: São Virgílio e São Ruperto de Salzburgo; São Quiliano de Würzburg, o Apóstolo da Francônia; São Arbogasto de Estrasburgo; São Albuíno (Wittan), o Apóstolo da Turíngia; e São Aldo, fundador de Altomünster, na Bavária.

Mas seriam os anglo-saxões – retornando ao continente para converter seus próprios irmãos germânicos (os “velhos saxões”, como os chamavam), assim como os frísios e outros – que completariam a conversão da Alemanha.

X. Os missionários anglo-saxões e seus discípulos

Os anglos e os saxões germânicos conquistaram a Inglaterra e, por meio de esforços missionários de Roma e da Irlanda, foram convertidos ao Cristianismo no século VII. Inflamados de zelo cristão, alguns deles conceberam o desejo de ir ao continente e levar a palavra de Deus a seus irmãos pagãos. Na região onde hoje se situa a atual Alemanha, o mais importante desses missionários anglo-saxões foi São Bonifácio, conhecido como o Iluminador da Alemanha. Por onde andou, este homem poderoso e complexo entregou-se completamente à correção de erros, corrupções e heresias nos remanescentes da Igreja. Ele adentrava corajosamente nas regiões onde não havia igrejas, nas quais os germânicos ainda praticavam sacrifícios humanos, divinizações e adorações de demônios, e botava ordem na Igreja devastada pela guerra e apenas esporadicamente visitada por monges peregrinos. Ele possuía a rara habilidade de atrair grandes ajudantes: em suas viagens a Roma, ele persuadiu três santos compatriotas a se juntarem a ele na Alemanha (São Vilibaldo, São Vunibaldo e São Lull); por meio de cartas para abadessas inglesas, ele conseguiu inspirar muitas santas mulheres a fundarem conventos em terras germânicas e evangelizar mulheres (Santa Leoba e Santa Valburga são alguns exemplos). Ele sofria de solidão e de saudades de sua terra natal, mas nunca parou de servir àqueles a quem Cristo o havia chamado a ministrar.

No fim de sua vida, ele estabeleceu bispados em Mainz, Regensburgo, Eichstätt e Salzburgo, reformou o clérigo decadente, que era cristão apenas no nome, e batizou e educou uma quantidade enorme de pessoas. Após assinalar São Lull como seu sucessor, São Bonifácio deixou os principais centros de sua atividade (as terras germânicas da Turíngia, Hesse e Bavária), levando sua mortalha fúnebre consigo. Ele partiu para a Frísia, já idoso, onde ele e mais 42 pessoas foram martirizadas por pagãos, após trabalhos missionários bem-sucedidos. Ele está enterrado em seu mosteiro em Fulda, Alemanha.

XI. A conversão do norte da Alemanha

Os frísios e os saxões ocidentais eram as principais tribos do norte da atual Alemanha. Eles se apegaram a seus deuses pagãos, sobretudo porque identificavam o Cristianismo com a derrota para uma potência estrangeira. É verdade de Carlos Magno tinha fortes motivações políticas para converter os saxões pois, como se localizavam na costa do Mar do Norte, estavam perturbando seu reinado. Mas, diferentemente de seus famosos predecessores, o Imperador Constantino e o Rei Clóvis, Carlos Magno usou da força bruta para empreender tais conversões, o que somente resultou em rebeliões. Felizmente, verdadeiros santos também trabalharam na área para converter os corações e mentes dos povos a Cristo, por meio do amor e da mansidão.

Os mais antigos missionários foram São Suitberto e os dois Santo Evaldo. São Suitberto missionou os bructuares, uma tribo saxônia, embora tenham posteriormente se espalhada após invasões. Santo Evaldo, o Preto, e Santo Evaldo, o Branco, eram missionários anglo-saxões que tentaram converter os saxões. Enquanto esperavam encontrar o líder local, eles foram assassinados por seus homens, que não queriam abrir mão de seus deuses pagãos.

São Ludgero, pelas suas qualidades pessoais e pelo período tardio em que atuou, foi de longe o mais bem-sucedido missionário a converter os frísios e os saxões. Pela Providência de Deus, seu avô abandonara o reino dos frísios enquanto eles ainda eram bárbaros, pois seu caráter cordial e imparcial era incompatível com seus modos cruéis. Ele e sua família se tornaram cristãos na terra dos francos.

Quando a Frísia Ocidental (Holanda) foi conquistada pelos francos (cristãos), a família migrou de volta para a região próxima a Utrecht. Seu lar estava aberto aos grandes missionários cristãos e, quando menino, Ludgero conheceu São Bonifácio na região, logo antes de seu martírio. Inspirado pelo histórico de sua família e pelos encontros com esses missionários, ele levou o Cristianismo aos bárbaros. Sua fluência no idioma frísio e sua familiaridade com os usos e costumes frísios, bem como sua extraordinária educação monástica adquirida em Utrecht e York (Inglaterra), o qualificavam para a tarefa. Quando a Frísia Oriental (norte da Alemanha) também foi conquistada pelos francos, Ludgero recebeu, enquanto território missionário, cinco distritos frísios que se opunham virulentamente contra o Cristianismo. Eles concordaram em se tornar cristãos se lhes fossem enviados um mestre que falasse sua língua. Embora tenha deixado a região por duas vezes, em função de revoltas, Ludgero converteu a região com sucesso, viajando sem parar e construindo mosteiros e pequenas igrejas de madeira. Ele rejeitou o bispado da distinta cidade de Trier para melhor expandir as atividades missionárias entre os vizinhos saxões, que acabavam de ser conquistados pelos francos de Carlos Magno. Lá, então, finalmente aceitou o posto episcopal, tornando-se o primeiro Bispo de Münster. Por fim, ele construiu um grande mosteiro, nos moldes beneditinos, na cidade de Werden, no Ruhr (próxima da atual Essen), trazendo monges da Frísia, Saxônia e Francônia; foi aí que escolheu ser enterrado e onde suas relíquias repousam até hoje. Um pouco mais ao norte, outro missionário, o anglo-saxão São Vilehado, primeiro Bispo de Bremen, levou as Boas Novas de Cristo ao território que inclui Bremen e Oldenburgo.

XII. Prússia

A última parte da atual Alemanha a ser missionada foi a Prússia, no leste. Esta região, porém, nunca havia sido ortodoxa, pois seu povo permanecera pagão e se opunha violentamente ao Cristianismo, assassinando os dois primeiros missionários a chegarem ao território: Santo Adalberto de Praga (+997) e São Bruno de Querfort (+1009). Eles não se tornaram cristãos até serem convertidos à força pelos católicos romanos em 1249.

XIII. A Ortodoxia alemã pós-cisma



O Cristianismo Ortodoxo foi levado às atuais Alemanha, Áustria e Suíça por refugiados ou trabalhadores da Rússia, Sérvia, Bulgária, Grécia e demais países ortodoxos. Hoje, há diversas igrejas ortodoxas nos países de língua alemã, assim como um mosteiro sérvio que mantém a maior parte de seus ofícios na Alemanha (Mosteiro de Santo Espiridião, em Geilnau, Alemanha). Atualmente, os alemães estão descobrindo a Igreja Ortodoxa.

Há também alguns conhecidos alemães que deixaram seu país e se tornaram santos ortodoxos na Rússia. Os mais notáveis são os loucos-por-Cristo São Procópio de Ustiug, Santo Isidoro e São João, o Misericordioso, ambos de Rostov, a Mártir Czarina Alexandra e a Mártir Grã-Duquesa Elizabete. Eles, juntamente com o jovem mártir Alexander Schmorell, membro da resistência “Weisse Rose” durante o regime nazista, são muito reverenciados pelos cristãos ortodoxos alemães atuais.

por Metropolita Filareto de Nova Iorque


Nosso Senhor Jesus Cristo, instruindo Seus discípulos e apóstolos, imbuiu neles a necessidade de observar a pureza de coração e pensamento. Do coração e da mente procedem nossos impulsos pecaminosos: “Ao contrário, aquilo que sai da boca provém do coração, e é isso o que mancha o homem. Porque é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias.” (Mat. 15:18-19)

O Salvador assim ensinou com estas palavras: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério.Eu, porém, vos digo: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração.” (Mat. 5: 27-28). Esta lei da natureza psico-política do homem é bem conhecida dos corruptores contemporâneos, que se esforçam conscientemente perverter nossa juventude. Nos lembramos como, na Rússia, aqueles que prepararam a Revolução, os comunistas, iniciaram o enfraquecimento espiritual de nossa nação imbuindo em nossa juventude a licenciosidade e a depravação. Certos grupos foram organizados para tanto, e espalharam a insatisfação pelas leis comuns de moralidade. Tal propagação da “moral livre” que nos rodeia é até maior, freqüentemente se espalhando até mesmo entre crianças em idade escolar.

Nos nossos dias, como nos tempos pré-revolucionários na Rússia, essa propagação tem a meta definida de corromper a sociedade contemporânea. É um método antigo. A história está repleta de exemplos de nações que pereceram pela difusão da depravação. O Senhor tornou em cinzas Sodoma e Gomorra. A Babilônia caiu. O Império Romano pereceu. O Ocidente livre poderia se submeter à mesma corrupção… O que vemos na vida que nos cerca? Indecência e devassidão no vestir; beijos e abraços desavergonhados nas ruas e lugares públicos; propagandas licenciosas, literatura pornográfica imunda… Toda essa corrupção e perversão inundam a vida numa imensa onda. Em verdade, não há menos devassidão agora, se não mais, do que nos tempos pagãos, quando os santos apóstolos e seus sucessores tinham de exortar os cristãos com um peculiar zelo na observância da modéstia.

A natureza do homem é tal que, nos pecados da carne, o papel ativo pertence ao sexo masculino, enquanto por outro lado a tentação vem das mulheres. Por isso as culturas cristãs em toda parte estabeleceram costumes que ajudaram a preservar bons costumes morais, bem como modestas vestimentas para as mulheres, para que a exposição das mesmas não invocasse pensamentos pecaminosos e inclinações tentadoras em ninguém. Quanto mais elevada a cultura espiritual, mais comedido era o modo de vestir das mulheres.

Moderação no vestir é nossa primeira linha de defesa. Ela deve guardar a pureza das mulheres e proteger o homem da tentação dos desejos pecaminosos. Ao mesmo tempo, a precisa evocação de tais sentimentos caracteriza a moda contemporânea.

O que era peculiar às mulheres perdidas que, para fazer o seu comércio, se vestiam de maneira provocante com o intuito de evocar a sensualidade nos homens, agora está se tornando a regra para jovens moças que geralmente não têm consciência do significado e das conseqüências de tal moda que as escraviza. Sabemos que a luta contra o pecado que nos rodeia por todos os lados não é fácil.

O caminho da salvação se faz estreito à medida que o mal e a apostasia se intensificam no mundo. Mas o mundo antigo pagão, que cercava aquele punhado de primeiros cristãos, não era menos corrupto. Esses últimos, no entanto, não cediam às tentações dos modos pagãos tal qual alguns hoje não cedem às tentações contemporâneas.

O Santo Apóstolo Paulo em sua epístola aos filipenses escreveu que eles brilhavam como luzes no seio de uma nação depravada e maliciosa (Fil. 2:15) Uma disposição espiritual elevada e uma vida irrepreensivelmente limpa e casta – estes eram os traços característicos dos cristãos filipenses, pelos quais o Apóstolo Paulo os louvou. Vivemos em tempos futuros; dezenove séculos nos separam daqueles dias em que o Apóstolo Paulo escreveu suas epístolas. Mas agora, assim como os cristãos dos primeiros séculos, estamos circundados por um ambiente cheio de licenciosidade e perversão. Que o elevado e santo exemplo dos antigos cristãos nos ensinem a ser também firmes na observância da leis morais cristãs e não cair as tentações que nos cercam.

O caráter e o valor moral da personalidade do homem depende na maior parte na direção e na força da vontade. É claro, todos entendem que para um cristão é necessário ter: primeiro, uma vontade forte e decisiva e segundo, uma vontade direcionada para o bem do seu próximo. Como alguém desenvolve uma vontade forte? A resposta é simples – acima de tudo através do exercício da própria vontade. Para tanto, assim como nos exercícios físicos, é necessário começar devagar, pouco a pouco. No entanto, tendo começado a exercitar sua vontade em qualquer coisa (i.e. na luta constante contra seus hábitos pecaminosos ou desejos) este trabalho jamais deve cessar. Mais ainda, um cristão que deseja fortalecer sua vontade, seu caráter, deve desde o começo evitar toda dissipação, desordem e inconsistência de comportamento. De outra maneira ele será uma pessoa sem caráter, indigno de confiança, um caniço agitado pelo vento, como lemos na Sagrada Escritura.

Disciplina é necessária para cada um de nós. Tem tal significância que sem ela a ordem e sucesso em nossas empreitadas é impossível. Na vida de cada indivíduo ela é de importância primordial, pois a autodisciplina intera agora toma lugar da disciplina externa, escolar ou militar. O homem deve se colocar em parâmetros definidos, tendo criado condições definidas e uma ordem de vida – não se afastando desse caminho.

Notemos isto também: os hábitos do homem são de grande significância no que concerne ao fortalecimento da vontade. Hábitos maus e pecaminosos são um grande obstáculo para uma vida moral cristã. Por outro lado, bons hábitos são aquisições valiosas para a alma e assim o homem deve educar-se no bem para que o que é bom se lhe torne habitual. Isto é especialmente importante nos seus primeiros anos, quando o caráter de um homem toma forma. Não é vão dizer que a segunda metade da vida terrena do homem se forma dos hábitos adquiridos na primeira metade.

Provavelmente ninguém argumentaria contra a necessidade de uma vontade forte. Na vida encontramos pessoas com vários graus de força de vontade. Às vezes acontece de uma pessoa bem aquinhoada, talentosa, com uma mente forte e um coração profundamente bom acabar por ter uma vontade fraca e não consegue por em prática os planos da sua vida, não importa o quão bons e valorosos eles possam ser. Por outro lado, uma pessoa menos talentosa que tem força de caráter e grande força de vontade geralmente obtém sucesso na vida.

O que é mais importante que a força de vontade é a sua direção: ela está agindo para o bem o para o mal? Uma pessoa bem intencionada mas de fraca vontade é de grande uso para a sociedade; uma pessoa de vontade forte que pende para o mal é muito perigosa. Daí fica claro como são importantes esses princípios, eles são os fundamentos básicos e regras pelos quais a vontade de um homem é guiada.

De que fonte pode a vontade de um homem haurir princípios apropriados para se guiar? Para um descrente uma resposta para tal pergunta é extremamente difícil e essencialmente impossível. Deveriam ser extraídos da ciência? Em primeiro lugar, a ciência se interessa primariamente por questões de conhecimento, não morais, e segundo, ela não é dotada de princípios sólidos pois está em constante mutação. Da filosofia? A filosofia ensina sobre a relatividade de suas verdades e não reclamam a autoridade incondicional das mesmas. Da vida prática? Menos ainda. Esta vida em si mesma necessita de princípios positivos que possam remover-lhe as inverdades. Mas enquanto a resposta à presente questão é tão difícil para descrentes, para um cristão que acredita a resposta é simples e clara. A fonte de bons princípios é a vontade de Deus, e ela se revela a nós nos ensinamentos do Salvador, em Sua Boa Nova. Ela sozinha tema autoridade incondicional nessa matéria; e ela sozinha nos ensina o autosacrifício, a liberdade cristã, a igualdade cristã e a irmandade (um conceito roubado por aqueles fora da fé). O Senhor mesmo falou dos verdadeiros cristãos, “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.” (Mat. 7:21).

Parte final do capítulo 60: Modern Academic Theology, do livro “Father Seraphim Rose: His Life and Works”, Hieromonge Damasceno. Páginas 484-6.

Tendo abraçado a ortodoxia tradicional que tinha criado tantos santos – incluindo um que ele conheceu pessoalmente, o Arcebispo João – Pe. Serafim estava duvidoso de que a ortodoxia “restaurada” da moderna teologia acadêmica fosse trazer o mesmo fruto. Até onde Pe. Serafim podia ver, esta havia já perdido o sentimento pela ascética piedade na qual os santos tinham sido criados. Num artigo para A Palavra Ortodoxa, ele se esforçou em explicar por quê:

“A impotência da ortodoxia como é tão amplamente expressa e vivida hoje é sem dúvida ela mesma um produto da pobreza, da falta de seriedade, da vida contemporânea. A ortodoxia hoje, com seus sacerdotes e teólogos e fiéis, se tornou mundana. Os jovens que vêm de lares confortáveis e ou aceitam, ou buscam (os ‘nativos ortodoxos’ e ‘convertidos’ sendo parecidos a esse respeito) uma religião que não esteja remota da vida auto-satisfeita que conheceram; os professores e palestrantes cujo meio ambiente é o mundo acadêmico, onde, notoriamente, nada é aceito como definitivamente sério, uma matéria de vida ou morte; a própria atmosfera acadêmica de mundanidade auto-satisfeita – todos esses fatores se juntam para produzir uma atmosfera artificial de estufa na qual, não importando o que possa ser dito concernindo exaltadas verdades e experiências ortodoxas, pelo próprio contexto no qual isso é dito e por virtude da orientação mundana tanto de falante quanto de ouvinte, isso não pode afetar as profundezas da alma e produzir o profundo comprometimento que costumava ser normal para cristãos ortodoxos”.

Pe. Serafim estava com os teólogos ortodoxos acadêmicos em seus trabalhos para fazer as pessoas cientes do significado e fontes da Fé Ortodoxa. Acima de tudo, porém, ele queria inspirar a nova geração com ascético podvig: “ênfase em fazer a vida espiritual antes de falar sobre isso”. Podvig era o que tinha movido todos os grandes “elos vivos” a se tornarem homens e mulheres de santidade, e poderia fazer nascer mais santidade na terra americana. Como o Arcebispo Abércio tinha dito: “A ortodoxia é uma fé ascética que chama ao trabalho ascético em nome do desenraizar de paixões pecaminosas e do implantar de virtudes cristãs”. E, de acordo com o ensinamento de São João Clímaco e outros Santos Padres, deve-se conquistar as paixões antes mesmo de tentar teologizar.

Em quase todo exemplar de A Palavra Ortodoxa, os padres de Platina apresentavam a Vida de um trabalhador ascético, um verdadeiro conhecedor de Deus. Eles sabiam que, mais que qualquer outra coisa, era amor pelos próprios ascetas que inspirava alguém ao podvig. Pe. Serafim não via esse amor por ascetas vindo dos periódicos dos novos teólogos. “E sem amor por santos”, ele escreveu, “a ortodoxia de alguém está aleijada e seu senso de direção está desviado – pois eles são os exemplos que se tem de seguir”.

Em 1973, os padres começaram a publicar as Vidas dos habitantes de desertos da Rússia setentrional, tendo-as arduamente escrito e compilado de um número de fontes raras. Sua meta definida, disseram, foi dá-las “não meramente como um exemplo de história morta, mas de tradição viva”. Mesmo enquanto as estavam imprimindo separadamente em cada exemplar, porém, um influente teólogo acadêmico castigou por impresso “aqueles que chamam a desertos inexistentes”, evidentemente considerando tais Vidas como um apelo a um “romantismo” religioso totalmente fora de sintonia com as condições contemporâneas de vida. Quando os padres finalmente imprimiram as Vidas juntas num livro, que chamaram A Tebaida Setentrional, Pe. Serafim respondeu essa crítica como segue:

“Por que, de fato, deveríamos inspirar a juventude ortodoxa de hoje com o chamado da ‘Tebaida Setentrional’ [da Rússia], que tem nele algo atrativo e de algum modo mais acessível para um zelota do século XX que o estéril deserto do Egito?

“Antes de tudo, a vida monástica aqui descrita não desapareceu inteiramente da terra; é ainda possível encontrar comunidades monásticas ortodoxas que ensinam a doutrina espiritual dos Santos Padres, e levar a vida monástica ortodoxa mesmo no século XX – com constante auto-repreensão sobre o quão longe se está abaixo das Vidas dos antigos Padres nestes tempos. (…) O sábio buscador pode encontrar seu ‘deserto’ mesmo em nosso estéril século XX.

“Mas este livro não é voltado somente para tais afortunados.

Todo cristão ortodoxo devia conhecer as Vidas dos Padres do deserto, que juntas com as Vidas dos Mártires nos dão o modelo para nossa própria vida de esforço cristão. Ainda mais, todo cristão ortodoxo devia saber de Valaam, de Solovki, de Svir, de Siya e Obnora e Lago Branco, do esquete de Sora, e dos homens parecidos com anjos que habitaram lá antes de ser transladados ao céu, vivendo a vida espiritual ortodoxa à qual todo cristão ortodoxo é chamado, de acordo com sua força e as condições de sua vida. Todo cristão ortodoxo devia ser inspirado por sua vida de luta longe dos caminhos do mundo. Não há ‘romantismo’ aqui. Os verdadeiros ‘românticos’ de nossos tempos são os reformadores da ‘ortodoxia parisiense’ que, desacreditando a autêntica tradição ortodoxa, desejam (…) substituir a autêntica visão de mundo ortodoxa por uma falsificação deste mundo baseada no moderno pensamento ocidental. A vida espiritual da verdadeira tradição monástica é a norma de nossa vida cristã, e seria melhor nos informarmos dela antes do terrível último dia quando somos chamados a prestar conta por nossa vida negligente. Não seremos julgados por nossa ignorância do vocabulário da ‘teologia ortodoxa’ contemporânea, mas seguramente seremos julgados por não lutar no caminho para a salvação. Se não vivemos como esses Santos, então que ao menos aumentemos nossos demasiado frágeis esforços por Deus, e ofereçamos nossas fervorosas lágrimas de arrependimento e nossa constante auto-repreensão por estarmos tão abaixo do padrão de perfeição que Deus nos tem mostrado em Seus maravilhosos Santos”.Essas foram de fato palavras fortes sobre os teólogos acadêmicos dos dias de Pe. Serafim. Era como Pe. Serafim via as coisas em 1975. Em anos seguintes, ele continuou a ver o modernismo na teologia acadêmica como um problema significativo, mas começou a focar maior atenção num outro problema ainda que ele veio a considerar como mais imediato: farisaísmo entre os tradicionalistas. Enquanto sua fé amadurecia e ele experienciava ainda mais profundamente o que significava ser um cristão, ele via mais claramente não apenas a necessidade de ser fiel à tradição de forma a evitar as ciladas do modernismo, mas também a necessidade de cultivar as fundamentais virtudes cristãs da compaixão e da humildade de forma a evitar as ciladas de uma mentalidade “tradicionalista” auto-serviente. Como veremos, esse aprofundamento de percepção provocou uma mudança no tom de seus escritos publicados. Em seus últimos anos, enquanto ele continuasse a tratar de problemas na Igreja, ele não o faria tanto com um espírito polêmico quanto com um espírito de pesar. Como ele escreveria naqueles anos: “Discursos contra as loucuras correntes não funcionam a não ser que se inclua a si mesmo nelas – vendo-as como nosso problema comum”.