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Por São Teófano, o Recluso
Tradução de Leonardo Florentino

São Teófano, o Recluso
O Santo Apóstolo e Evangelista João, o Teólogo, o discípulo amado do Senhor, é acima de tudo um exemplo e um professor do amor. O amor respira através de seus evangelhos, lições sobre ele abundam em suas epístolas e sua vida serve como um fulminante exemplo de amor.
Ele versou sobre todos os mistérios do amor – sua fonte, seu movimento em ações, sua culminação – e aonde ele leva todos aqueles que o seguem: às alturas. São João é bastante conhecido quando o assunto é amor, e qualquer quer um que ouse meditar sobre isso teria em mente o santo como um exemplo de amor; um professor de amor.
Agora examinemos o uso que os nossos sábios contemporâneos fizeram deste ensinamento. Eles possuem um tipo especial de vã sabedoria chamada “indiferença”, na qual se baseiam para dizer: acredita no que quiseres, não faz diferença – só ame a todos como irmãos, seja caridoso para com eles e os influencie de maneira positiva. Eles afirmam que o Evangelista João só escreve sobre amor. Para ele, amor é a luz, a vida e toda perfeição. De acordo com suas palavras, aquele que não ama caminha na escuridão, permanece na morte, e é um assassino. É notório que quando São João atingiu a velhice e não podia mais andar, era carregado até a Igreja. Lá ele apenas admoestava, “Irmãos! Amemo-nos uns aos outros.” Ele valorizava demais o amor. E eles nos dizem que nós também devemos amar desse jeito – apenas amar, crendo da maneira que nos apetece.
Até eu mesmo já tive que escutar tal “sabedoria”. E talvez você também ouviu ou irá ouvir algo parecido com isso. Deixe-nos contrastar o falso ensinamento deles com o verdadeiro de São João, o Teólogo, para que não permitamos que nossos pensamentos desabem dos fundamentos do bom senso cristão para a vã sabedoria dos “indiferentes”. Os tais “sábios” desejam construir tudo sem Deus – seu bem estar externo e sua moralidade. Daí eles lutam de todas as maneiras para tecer astuciosamente uma escola de pensamento onde não há qualquer necessidade de falar de Deus. E vão promovendo com entusiasmo o amor. Eles nos dizem para amar uns aos outros, e que isso não tem nada a ver com Deus. E especialmente nesse ponto o Santo Evangelista os destrona. Ainda que São João sistematicamente nos lembra de amar uns aos outros, ele também liga o amor estreitamente com Deus, com o amor a Deus e com o conhecimento de Deus – é impossível separá-los. Observem onde o amor de São João se origina: “Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros (I João 4:10 -11)”. Segundo estas idéias, nosso amor mútuo deve ser erigido pelo ato de fé no Senhor, que veio para nos salvar, e conseqüentemente não é correto acreditar no que quiser. Adiante ele ensina, “Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus” (I João 4:7). “Se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós...” (I João 4:12). “Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele” (I João 4:16). Veja, ele não diz uma palavra sequer sobre o amor sem falar de Deus e do Salvador. O amor é de Deus e leva a Deus. Assim, aquele que diz que ama seu irmão, mas não conhece nem ama a Deus e ao Salvador, é um mentiroso e a verdade não está com ele cf. (I João 4:20; 2:4). Como conseqüência, podemos resumir todo o ensinamento do Santo Evangelista sobre o amor nas seguintes palavras: para amar o seu irmão, você deve amar a Deus, e para amar a Deus, você deve conhecê-lo dentro de si mesmo e especialmente em Sua atividade salvífica sobre nós. Devemos conhecer e acreditar. Em que consiste a vontade de Deus? Em fé e amor, segundo o mandamento: “que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros” (I João 3:23). Não apenas somos ordenados a amar, mas também a acreditar no Senhor, de tal forma que a fé é o nascedouro do amor. Se alguém pudesse juntar todas as passagens em que São João Evangelista fala apenas de amor, ainda não poderia confirma seu ensinamento baseando-se no falso argumento de “apenas amar e acreditar em qualquer coisa”.
Além de ensinar sobre o amor, ele também fala de fé, independente da lei do amor. Observem o quão categoricamente ele rejeita aqueles que ensinam a crer em qualquer coisa. O que ele prega desde os primeiríssimos versos: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida 2 (Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada); 3 O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo” (I João 1: 1-3). O ponto mais importante no ensinamento de São João e dos apóstolos é o ensinamento sobre a comunhão com Deus através de Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual procede a comunhão dos fiéis uns com os outros. Como podemos ter um sem o outro? Adiante São João pergunta: quem é mentiroso? E responde, então: Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho. Qualquer que nega o Filho, também não tem o Pai... Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus (I João 2:22–23; 4: 15). Todo o assunto se resume a confessar que Nosso Senhor Jesus Cristo é o Filho de Deus e é Deus. Como então poderia alguém dizer, “Crê da maneira que te aprouver”?
Então segue o aviso: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus. E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo” (I João 4: 1-3). Aquele que diz, “Crê como quiseres” não confessa Jesus Cristo, pois se o fizesse não falaria de tal maneira. Conseqüentemente, ele não pode ser de Deus. De onde ele é então? Verdadeiramente, do anticristo.
Finalmente, o Santo Evangelista descreve toda a essência do Cristianismo assim: “E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (I João 5:11-12). Quem tem o filho de Deus? Aqueles que crêem em Seu nome. Adiante ele diz, e escreve: “que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna...” (I João 5:13). Conseqüentemente, aquele que não crê no Filho de Deus não possui a vida eterna. Há possibilidade de ser indiferente sobre o que a pessoa acredita? Não. ”E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (I João 5:20).
Estas passagens devem ser suficientes, eu suponho, para mostrar aos “indiferentes” que em vão eles buscam suporte para suas mentiras nos ensinamentos de São João, o Teólogo. É mais do que provável que fazem suas declarações sem nunca ter lido os santos e divinamente inspirados escritos de São João, do contrário, o citam baseados em boatos sobre seu exuberante amor. Deixe-os agora apresentar outro argumento, que não o acima, para defender sua tese perante nós crentes. Uma única palavra do discípulo amado é suficiente para desacreditar seu ensinamento e, sem dúvidas, confirmar nossa crença naquilo que nos foi dado pelo Senhor, através dos Santos Apóstolos, e preservado pela Igreja.
Eu só acrescentaria a seguinte consideração às decisivas palavras do Apostolo e Evangelista João: tendo alienado a si mesmos, em suas mentes, do Senhor, estes descrentes bem aceitam atos de caridade cuja origem e alicerce é precisamente o amor. Eles agem desta maneira apenas para se fundarem em algo sem ter a garantia de que se fixaram em uma base sólida. Se ao menos tivessem um entendimento claro de como, de fato, é possível ao homem agir de uma maneira frutífera, eles nunca permaneceriam presos aos seus próprios ensinamentos. A essência da questão é que não estamos num estado apropriado. Conseqüentemente, não podemos agir corretamente. Para que possamos agir corretamente, devemos antes passar ao estado correto. Pelas nossas próprias forças não somos capazes de fazer isso. O Senhor, tendo vindo à Terra, elevou os homens ao estado correto. Mas ele não levou os homens a esse estado por sua própria conta, antes o homem deve aceitar Dele uma humanidade renovada e então ganhar a possibilidade de agir corretamente. Nós obtemos este estado através do Santo Batismo, pois aqueles que são batizados em Cristo, vestem-se de Cristo. Desde o Batismo nos tornamos unos com o Senhor e começamos a viver Sua vida e agir pelo Seu poder. Aqueles que invocariam o amor ou o agir corretamente (pois o amor é a completude da lei) deveriam primeiro aceitar todas as premissas do Cristianismo para que pudessem caminhar corretamente e negar sua própria falsidade (mentira). Isso é impossível sem a fé, pois a fé é a raiz do Cristianismo e o começo de tudo. O Senhor mesmo o diz: “Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo, e ardem” (João 15: 4-6).
Quando alguém começar a lhes falar sobre amor ou boas ações independente de crença verdadeira, lhe diga: espere, primeiro acredite corretamente. Pela fé adquira todos os preceitos salvíficos do Cristianismo. Através deles esteja unido com o Senhor, faça sua vida e suas forças dependerem Dele como faria se sua vida dependesse de um remédio e então vc começará a agir de uma maneira proveitosa. De fato, o agir no amor é a testemunha de uma vida correta, mas para obtê-la e permanecer nela, deve-se aceitar toda a Verdade de Deus e passar por todas as ações santificadoras de Deus (sobre sua pessoa). Apenas sob estas condições, estando no Verdadeiro Amor, poderemos crescer até Ele em todas as coisas. Resumindo: aquele que não tem a Fé correta não pode entrar no estado apropriado, e aquele que não entra no estado apropriado, não pode agir de maneira correta. Agora vêem como não se pode dizer: “Creiam no que quiserem, apenas amem”?
Fé não é só a imagem do conhecimento de Deus e da nossa relação com Ele; aí também se incluem todas as instituições salvíficas [não apenas a Igreja como instituição mas tudo o que nela está contido para a salvação] dadas por Deus. Essas instituições salvíficas mantém a fé ativa. Nossos chamados sábios talvez não se oponham realmente ao que ensina o Cristianismo, mas, mais do que qualquer coisa, eles são rejeitados pelas instituições Cristãs. Já que essas instituições não são nada mais do que a fé em realidade e em ação, daí seu maior pecado é que eles não querem agir no espírito da Fé. É de se espantar como essas pessoas expõem de maneira tão persistente sobre feitos e obras mas retiram-se das atividades no espectro da Santa Fé. Há algo errado aqui. Certamente eles estão familiarizados com as leis do pensamento lógico. Mas há tanta duplicidade que eles não são na verdade agentes, mas agem sobre eles – eles são ferramentas de um espírito estranho, estranho à Verdade.
Irmãos, tendo entendido isto, permitam que nos protejamos dos
pensamentos malignos deste mundo. Só aqueles que nunca provaram a
Verdade podem duvidar diante dela. Deixem-nos cumprir com humildade e no
espírito da verdade tudo que a nossa Santa Fé demanda. Então nós
teremos, e carregaremos conosco, uma testemunha que trará à destruição
todo falso argumento de fora. Que o Senhor nos ilumine pela Sua Verdade.
Amém.
Originalmente publicado em "Orthodox Life", No. 6, 1996